No boteco

Literatura

Terra Del Fuego (José Mauro Fernandes)

Resolveu passar o dia de finados junto da esposa.
Não, ele não foi ao túmulo dela, até porque não estava morta. Simplesmente ficou em casa em sua companhia.
Dentro do lar, reinava um silêncio profundo e ela se vestira de preto. Todas as peças de roupas que ela usava eram da cor preta, como respeito ao dia dos mortos. Talvez, pela morte de algum parente, ou até mesmo prenunciando a morte do relacionamento, que de tão desgastado vivia moribundo.
Ele, dentro do silêncio, lia a obra intitulada “Recordações da Casa dos Mortos” de Dostoiévski, divagando seus pensamentos de uma outra época, em que tanto ele como ela, eram mais vívidos. Às vezes um diálogo nascia, para logo em seguida fenecer, dada pela força da discussão que se aproximava, pelo afastamento de mundos diferentes que já nasciam em suas mentes.
Lógico que havia esperanças, de retomadas românticas de outrora, porém não eram os mesmos desejos e sonhos. Até mesmo não eram mais as mesmas pessoas. Já haviam pensado, juntos, uma vida mais corrida, com projetos de compra de casa ou algum desejo consumista de propriedade.
Na outra mão, que não segurava o livro, havia, um copo de cerveja com gelo. Costume dos dois. Ela já não bebia mais líquidos com teores alcoólicos. Suas mãos, também trêmulas, se agarravam a uma xícara de chá de camomila.

Os diálogos iniciados, logo se interrompiam, pois sempre se divergiam, em propostas e imposições unilaterais, e mesmo quando eles haviam-se acordados em um assunto, se divergiam em discussões que só não se prosseguiam, neste dia, pelo fato de ser “dia dos mortos”.
E o silêncio voltava, sem conforto, para ambos os lados.

O branco em sua mente e a cor preta da roupa de luto da esposa, a todo instante, lembrava a ele, mais uma dor fúnebre: torcer para o botafogo era o mesmo que torcer para a morte eminente após sorrisos efêmeros de gols pseudo-alvissareiros para a conquista de um campeonato que se distanciava para lá de algumas décadas.

À tarde, enquanto ela dormia, espalhou pela cama, metade do líquido contido na garrafa de cachaça, dada a ele como presente de aniversário, e em seguida riscou o palito com ponta de pólvora, na caixa com fósforo, e ateou fogo.

Os bombeiros, após, disseminado o incêndio, encontraram um corpo carbonizado e o livro, intacto, de Dostoievski.

Um ano depois, a (Interpol), polícia internacional, prendeu o velho, acusado de homicídio e piromania, na cidade de Terra Del Fuego, na Argentina.

O pulsar de um pensamento (sobre Clarice Lispector)

As aventuras de Clarice no mundo literário são intensas pulsações; portanto, cheias de vida e movimento. E era assim que ela queria que fosse. “Quero escrever movimento puro”. O pulsar requer vida e movimento; faz escorrer pelas veias o sangue que mantém vivo. Mas a nossa relação com a vida passa também pela morte. Não no sentido de temê-la, mas de desafiá-la como “o beijo no rosto morto”. É que ao tomarmos consciência da morte perguntamos sobre a vida e projetamos sobre ela a nossa própria experiência. O que significa viver? “Viver é uma espécie de loucura que a morte faz”.

Vida e escritura. Uma escritura por onde a vida jorra. Uma escritura que dá à luz a vida. Escrever para não morrer, dizia Blanchot. Mas também escrever para trazer um novo frescor para a vida ou ainda para inventar um novo tipo de existência. A escrita tem essa relação direta com a destruição e com a criação. É o duplo do sentido. Morrer para fazer nascer.

Por isso que escrever é ameaçador tanto para quem escreve como para quem lê. Clarice sabia disto:

“Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavras que digo escondem outras – quais? talvez as diga. Escrever é uma pedra lançada no poço fundo.”

As palavras revelam o que está oculto? Num certo sentido sim. Elas mostram o que ainda não se viu; desnudam o que permanecia encoberto; abrem os olhos para uma paisagem que se encontrava esquecida porque desconhecida. Mas como descrever o que nunca foi descrito? Só mesmo se lançando no vazio e inventando novas formas de dizer. Ora se aproveitando de palavras que já existem; mas às vezes criando um novo jogo de palavras; novos vocabulários; novos conceitos. Mas uma coisa é certa: há sempre um risco. O risco das palavras irem além do dito; de escaparem do domínio do autor; de revelarem coisas que ele mesmo não previa ou intuía. É que “as palavras que digo escondem outras”. Portanto, como não temê-las? Há um risco eminente no ato de escrever; risco este que só os grandes escritores são capazes de sentir e correr. E Clarice assume este perigo.

O riso de Kafka

Deleuze dizia que toda obra de literatura verdadeiramente nova é simples, fácil e alegre. E dizia isso pensando também em Kafka. Mas estas características não diminuem em nada o tom belicoso de uma obra. Kafka é bombástico; e sua máquina de guerra está direcionada para tudo aquilo que representa a negação do outro. O ser humano está habituado a ver o mundo a partir do seu próprio mundo e, por isso mesmo, julgar os outros menores, inferiores e, muitas vezes, desprezíveis. Muitas são as construções destinadas a capturar e fazer calar o outro. “Impossível chegar a compreender como penetraram até a capital, que está todavia tão longe da fronteira. Entretanto, estão aí, e cada manhã parece aumentar seu número” (Kafka, A muralha da China).

No entanto, o deslocamento proporcionado por Kafka nos convida a olhar não apenas o outro lá fora, mas, principalmente, o outro que existe em cada um de nós; o outro que nos tornamos a cada momento; o outro que participa da nossa metamorfose. Ou seria melhor falarmos de outros? De qualquer modo podemos destacar duas forças que nos intrigam: a que exige que permaneçamos os mesmos e a que reclama pela presença dos outros que somos nós. O mesmo e o outro, eis uma das possibilidades de leitura do universo kafkiano.

Lavoura arcaica, de Raduan Nassar (fragmentos)

“e não esqueça os gestos, elabore posturas langorosas, escancarando na fresta dos seios, expondo pedaços de coxas, imaginando um fetiche funesto para os tornozelos; revolucione a mecânica do organismo”

“longe de suspeitar que percebido assim eu acabava de receber mais uma graça: liberado na loucura, eu que só estava a meio caminho dessa lúcida escuridão”

“pela primeira vez senti o fluxo da vida, seu cheiro forte de peixe, e o pássaro que voava traçava em meu pensamento uma linha branca e arrojada, da inércia para o eterno movimento”

“e muita coisa estava acontecendo comigo pois me senti num momento profeta da minha própria história”

“não há paz que não tenha um fim, supremo bem, um termo, nem taça que não tenha um fundo de veneno”

“Toda ordem traz uma semente de desordem, a clareza, uma semente de obscuridade”

“Não acredito na discussão dos meus problemas, não acredito mais em troca de pontos de vista, estou convencido, pai, de que uma planta nunca enxerga a outra”

“não reconheço mais os valores que me esmagam, acho um triste faz-de-conta viver na pele de terceiros”

“a única coisa que sei é que todo meio é hostil, desde que negue direito à vida”

6 Comentários »

  1. Lavoura é mesmo fantástico! Lírica e de uma estética indubitavelmente própria, abrupta; a obra lança o leitor ao universo sintático e absorvente das palavras, onde o não dito tem valor semelhante ao explícito. Vale a pena tê-la no acervo literário.
    Os fragmentos selecionados são bem sugestivos.
    Destaco: “aprendi bem cedo, que é difícil determinar onde acaba nossa resistência, e também muito cedo aprendi a ver nela o traço mais forte do homem”.

    O sítio em si ficou muito bom!!! Gostaria de ler algo sobre a obra kafkiana, uma sugestão.

    Beijo!

    Comentário por Marcele Cypriano | 29/06/2008 | Responder

  2. Que bom que você gostou Marcele. E adorei a idéia de falar de Kafka, um autor que me impressiona bastante. Valeu!!!

    Comentário por marciosales | 29/06/2008 | Responder

  3. Sugeri, e…?! Do Kafka, li apenas “A Metamorfose”, e confesso que, nas primeiras cinco páginas, queria defenestrar o livro! Incompreensão, provavelmente. Terminei de ler: relutantemente?! Não sei dizer… gostar, eu gostei. Só não consegui absorver toda a idéia subjacente que o livro carrega consigo. Por isso sugeri: a fim de lapidar meu entendimento.
    Do absorvido por mim, percebi: o melindre nas relações humanas; a forma com que uns enxergam os outros; o manejo dos interesses; a repulsa ao diferente e a conformidade. Conviver com outras pessoas é uma tarefa extremamente difícil, para os seres egoístas e egocentristas que somos. Acostumados a observar as coisas sob um único ponto de vista, é cômodo acreditar que possuímos a verdade, e ponto. Se importar com os maus pedaços aferidos pelas outras pessoas? Melhor deixar que o outro se estrepe sozinho, afinal de contas isso não faz parte da sua ossada… Agora, quando queremos tirar algum proveito de outra pessoa, a tratamos com maestria! É esse o nosso interior, sórdido por excelência. Mas é claro que essa casca não se encontra aparente… é tudo muito mistificado, até onde se consegue suportar. Com o passar dos tempos a gente acaba se cansando de ter, destaco o ter, que agüentar o outro. Aí vem a repugnância, quando já não se tolera mais as diferenças. E esta última nos lança, novamente, ao desprezo. Deste modo as relações humanas são entendidas como um ciclo vicioso e banal. Sempre na permuta. E são essas relações o objeto desnudado por Franz Kafka. Ele nos obriga a viver na pele de cada personagem, quando encontramos em cada uma delas uma característica a nossa semelhança, ou quando somos refratários a qualquer uma delas. Mas como se sentir indiferente às angustias cotidianas? Impossível, cada um de nós tem um furúnculo que não cessa de doer; uma virulência que passa despercebida aos olhos, mas que está ali, latente. Virulência esta que, nos impulsiona a buscar a sanidade. Pra se curar é preciso defrontar-se com o novo; mas o diferente dá medo. Quando supracitei a repulsa ao diferente é tanto de fora pra dentro, quanto ao contrário. Ninguém quer o novo quando já se alcançou estabilidade. É da natureza humana clamar pelo mesmo. E será mesmo possível se manter o mesmo mediante as investidas do outro? Ou melhor dizendo, dos outros? Mudamos mais pelo outro do que pela gente. A pressão exterior é tamanha, vindo de todas as direções, que nos comprime num mundo à parte. Aí a gente vai se metamorfoseando… Uma vez sob as investidas do outro, nem ele e nem você serão mais os mesmos. E a indiferença do outro faz a gente se sentir o centro, pois o que sobrou foi só você e o seu “mundinho”. Contudo, “o inferno, são os outros”. rs

    Aí lembrei da música “Anacrônico” da Pitty, não é que tem relação com o que escrevi:

    ANACRÔNICO

    “É claro que somos as mesmas pessoas
    Mas pare e perceba como o seu dia-a-dia mudou
    Mudaram os horários, hábitos, lugares
    Inclusive as pessoas ao redor

    São outros rostos, outras vozes
    Interagindo e modificando você
    E aí surgem novos valores,
    Vindos de outras vontades,

    Alguns caindo por terra,
    Pra outros poderem crescer
    Caem 1, 2, 3, caem 4, (2x)
    A terra girando não se pode parar

    Outras situações
    Em outras circunstâncias,
    Entre uma e outra às vezes
    Se vêem os mesmos defeitos,
    Todas aquelas marcas
    Do jeito de cada um

    Outro ciclo em diferentes fases
    Vivendo de outra forma,
    Com outros interesses,
    Outras ambições mais fortes,
    Somadas com as anteriores
    Mudança de prioridades,
    Mudança de direção.”

    até…

    Comentário por Marcele | 04/07/2008 | Responder

  4. “Mas como se sentir indiferente às angustias cotidianas?” Talvez seja esse o efeito do pensamento; nos perturbar frente às angústias habituais, nos fazer sangrar a dor de uma existência assujeitada, nos inquietar com os estados mórbidos que se petrificam. “Um pouco de ar, senão eu piro”, dizia Foucault. Mas penso agora também nas palavras de Clarice Lispector: “Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida”.
    Até…

    Comentário por marciosales | 08/07/2008 | Responder

  5. Márcio, gosto do seu texto, da fluidez da sua respiração nele, mesmo em ritmo por vezes intenso e descompassado; gosto dos temas debatidos, da poesia presente na sua argumentação, dos referentes cuidadosamente buscados. Parabéns, meu amigo, e obrigada por dividir conosco a palavra, a voz, o gesto humano.
    E… uma dica de Kafka,O Processo: “Certamente alguem havia caluniado Josef K., pois uma manhã ele foi detido sem que tivesse feito mal algum.”
    Há uma adaptação para o teatro em exibição agora no Teatro Maison de France. Vale a pena conferir.
    Já para ler melhor Kafka, outras literaturas: Fernando Pessoa, absolutamente, Drummond, Clarice, Guimarães Rosa, Saramago, só para citar alguns.
    Vc me animou a voltar a escrever no meu “Sararau poético”. Em breve mando notícias, vc vai ver…
    Bjs, bjs,

    Comentário por Claudia Fabiana | 12/07/2008 | Responder

  6. Que ótimo ver a sua participação aqui Claudinha. Quero conhecer seu “Sararau poético”. Como diz uma outra amiga, precisamos ampliar as nossas redes de confabulação. Adoro essa galera que você cita. Manda um texto sobre eles pra cá. Beijão.

    Comentário por marciosales | 14/07/2008 | Responder


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