No boteco

Filosofia

Foucault e os modos de subjetivação

Foucault e os modos de subjetivação, por M.Sales

Os últimos trabalhos de Foucault, que se voltam para o campo da ética, operam um importante deslocamento em relação às análises feitas anteriormente sobre as relações de poder. Embora a ênfase esteja na governamentalidade, doravante não se trata mais da questão do governo dos outros, mas do governo de si. O poder dá lugar à potência. O biopoder cede espaço à biopolítica.

Não que Foucault tenha abandonado a perspectiva das relações de poder, mas agora situa o combate em um outro nível – o da relação consigo mesmo. Uma nova estratégia de luta se insinua: um conjunto de exercícios e práticas destinado a uma construção de si mesmo enquanto sujeito. A potência é essa força sobre si mesmo capaz de instaurar um modo de existência não subjugado pelo outro; uma força vital que prepara o indivíduo para enfrentar as adversidades; uma força criativa que opera uma mudança do sujeito por ele mesmo. Ocorre uma dobra nesta nova análise inaugurada por Foucault, a dobra do sujeito sobre si mesmo procurando fazer da sua própria vida uma obra de arte.

Neste empreendimento a relação com a verdade assume contornos significativos. Não se trata de se ajustar a uma verdade dada (verdade como adequação), mas de buscar uma preparação para pôr em movimento uma verdade-ferramenta (verdade como estratégia). Esta relação do sujeito com a verdade, por um lado, põe em questão a forma como as relações de poder estão organizadas e, por outro, prepara o terreno para a possibilidade de novas experiências sócio-políticas Neste sentido, a biopolítica pode ser entendida como a reinvenção de novas formas de existência na sociedade que se contrapõem aos dispositivos de poder.

Neste contexto, a filosofia assume um papel fundamental. Ela é concebida como uma espécie de saber espiritual que permite ao sujeito se apropriar dessas práticas em relação a si mesmo, tendo em vista o cuidado de si e a estética da existência. Ela surge como o instrumento capaz de operar a transformação do sujeito para que tenha acesso à verdade e constitua a si mesmo como sujeito do discurso verdadeiro, de tal modo que possa viver como se deve, ou seja, de modo ético. Nas análises de Foucault o saber espiritual se contrapõe ao saber de conhecimento. Enquanto este último visa à verdade das coisas e do próprio sujeito, o primeiro tem em vista o que o sujeito deve fazer em relação a si mesmo para que possa ser o sujeito da sua própria verdade e, a partir dela, viver de modo belo. Conforme podemos notar, há uma estreita implicação entre estética, ética e política nesta história da verdade empreendida por Foucault. Através dela o viver ético é visto na perspectiva de uma estética da existência. Fazer da vida uma obra de arte é conceber um modo de subjetivação em que o sujeito aparece como o artífice de si mesmo. Sem um modelo, um padrão, uma norma a se adequar o que resta é a verdade tomada para si e experimentada no modo de viver.

O cinismo: Diógenes e Elomar

por M. Sales

O cinismo é uma filosofia que foi criada em Atenas, por volta do século IV a.C., por um camarada chamado Antístenes. A idéia principal defendida pelo cinismo é o desapego aos bens materiais e às coisas externas como luxo, poder político e boa saúde. Para os cínicos a felicidade está dentro de cada um; basta saber cultivá-la. Em contrapartida a infelicidade consiste na tara pelas coisas. Por isso pregavam a ataraxia, ou seja, o domínio dos desejos artificiais que nos aprisionam. Deste modo, acreditavam que a civilização empobrece a vida uma vez que impõe limite à liberdade e que o homem dispõe de tudo que precisa para viver bem, sendo auto-suficiente. Defendiam ainda um retorno à vida da natureza, errante e instintiva, como a dos cães.

O maior cínico foi Diógenes de Sínope (413 – 323 a.C.). Só pra se ter uma idéia, o cara vivia dentro de um barril. Andava pelas ruas de Atenas com uma lamparina acesa mesmo de dia procurando por alguém que fosse virtuoso. Já naquela época tava difícil de encontrar. Outro fato curioso é que Diógenes tinha o hábito de se masturbar em praça pública. Dizia que a masturbação é um privilégio que devia ser ensinado a todos; pois bom seria se pra satisfazer a fome bastasse esfregar o estômago. Aliás, seu prato predileto era sopa de lentinhas. Certo dia alguém lhe disse: “— Se aprendesses a bajular o Rei, não precisarias reduzir tua alimentação a um prato de lentilhas”. Por sua vez, Diógenes retrucou: “— E tu, se tivesses aprendido a te satisfazeres sempre com um prato de lentilhas, não precisarias passar tua vida bajulando o Rei”. Diógenes desprezou ostensivamente os poderosos e as convenções sociais. Conta-se que, devido a sua notoriedade, Alexandre Magno quis conhecê-lo. Neste dia o filósofo tomava banho de sol numa planície. Alexandre se aproxima dele e tenta agradá-lo prometendo conceder o que ele quisesse; ao que Diógenes responde: “Não me tires o que não me podes dar! Meu desejo é que te afastes da frente do meu sol”. Com esta resposta ele mostra que não depende de ninguém pra ser feliz e pra fazer o que gosta.

Mas nós aqui no Brasil também temos um cínico tão curioso quanto Diógenes. Refiro-me ao grande compositor e cantador Elomar. Veja na seção música a apresentação de Violêro.

Nietzsche e as mulheres – parte I

por M. Sales

Ao leitor desavisado quero esclarecer que não se trata aqui de expor as aventuras amorosas do filósofo. Até porque pouco se sabe sobre essa faceta da sua vida. Fala-se da sua paixão intensa, porém não correspondida, por Lou Salomé e das desventuras ao lado da mãe e da irmã. Mas não podemos afirmar categoricamente que essas experiências de convívio com as mulheres foram as únicas responsáveis pela visão que ele tinha da mulher e que aparecerá, de forma dispersa, em vários momentos de sua obra.

Mas longe de mim pretender ser o advogado de Nietzsche ou querer justificar o que ele disse ou deixou de dizer. Não creio, de jeito nenhum, que o seu pensamento – ou de qualquer filósofo que admiro – esteja acima de qualquer suspeita.

No entanto, percebo muitas vezes que Nietzsche é mal compreendido porque é lido de forma distorcida, deturpada e dispersiva.

A grande dificuldade de se ler Nietzsche é tentar compreendê-lo com as lentes das nossas convenções; sejam elas políticas, morais, estéticas ou acadêmicas. Mas Nietzsche não é nada convencional. Seus escritos têm um tom de humor altamente sarcástico e provocativo; e pretendem rir da nossa cara de espanto, de aborrecimento, de medo que eles provocam. Mas é tudo uma grande ironia, um grande jogo, uma grande anedota. E por isso, um grande pensamento. “Talvez, se nada mais do presente existir no futuro, justamente a nossa risada tenha futuro!” (Além do bem e do mal § 223).

Poderia aqui argumentar que ele era um homem inserido no seu tempo, portanto marcado pelo machismo vigente; e que por isso via a mulher com os olhos da sua cultura. E que seria injusto cobrar dele uma outra postura; assim como seria forçar a barra acusando os filósofos gregos pelo apoio declarado à escravidão. Mas isto também seria convencional e iria contra o próprio pensamento de Nietzsche que se dizia extemporâneo.

A questão, me parece, é outra. Ao disparar terríveis flechas contra a mulher não é exatamente em relação ao que ela é que ele se dirige; mas contra o que ela está se tornando. Pra ser mais claro, contra a regressão da mulher (Além do bem e do mal § 239). A mulher dos tempos modernos estaria se afastando da sua natureza e imprimindo para si um ritmo de vida decadente.

Nietzsche e as mulheres – parte II

por M. Sales

 A natureza da mulher

“A mulher perfeita. – A mulher perfeita é um tipo de ser humano mais elevado que o homem perfeito; e também algo muito mais raro.” (Humano demasiado humano § 377)

Para entender esta questão da mulher é preciso destacar a diferença que Nietzsche estabelece entre, por um lado, a agressividade e a força de uma natureza e, por outro, o sentimento de vingança e de rancor. Neste sentido, ele vai opor a mulher vingativa e ressentida à mulher realizada e feliz. Para ele a inveja e a vingança são frutos da má- consciência. Já a força que agride e que despreza diz respeito a uma natureza afirmativa. Como exigir da tigresa que respeite as suas presas?

“O que na mulher inspira respeito e com freqüência temor é sua natureza, que é ‘mais natural’ que a do homem, sua autêntica astuciosa agilidade ferina, sua garra de tigre por baixo da luva, sua inocência no egoísmo, sua ineducabilidade e selvageria interior, o caráter inapreensível, vasto, errante de seus desejos e virtudes…” (Além do bem e do mal § 239). Ao considerar a mulher mais selvagem e inapreensível, Nietzsche pretende aproximá-la de Dionísio. Estas características indicam sua flexibilidade moral no sentido de não se moldar facilmente, de não ser facilmente domesticada. Talvez neste sentido a mulher esteja mais apta para o amor que os homens, uma vez que o amor, enquanto expressão da natureza, é “imoral”. “É que homem e mulher entendem por amor coisas diferentes (…). Pois o amor, concebido de modo inteiro, grande, pleno, é natureza e, enquanto natureza, algo eternamente ‘imoral’” (A gaia ciência § 363).

Este aspecto natural da mulher é exaltado por Nietzsche. Para ele, quando a mulher permanece na sua natureza ela é perfeita. Mas quando ela pretende mudar se espelhando no homem, ela se perde.

“Os sexos se enganam um a respeito do outro: no fundo, cada um deles ama e honra apenas a si mesmo (ou o seu ideal, para dizê-lo de modo mais agradável). Assim o homem quer a mulher tranqüila – mas a mulher, como o gato, é essencialmente intranqüila, por mais que tenha aprendido a dar-se uma aparência de paz” (Além do bem e do mal § 131). É justamente esta intranqüilidade da mulher que a torna sagaz e bela. No lugar da calmaria, da ordem, da serenidade, da razão ela quer a volúpia, a tempestade, o turbilhão, o pulsar das emoções.

Nietzsche e as mulheres – parte III

por M. Sales

A regressão da mulher ou decadence avec élegance

O que Nietzsche despreza é a mulher que a todo custo quer encontrar a “mulher em si”: “talvez me seja permitido expor algumas verdades acerca da ‘mulher em si’: supondo que desde já se saiba que são apenas verdades minhas.” (Além do bem e do mal § 231).

“A mulher quer ser independente: e com tal objetivo começa a esclarecer os homens sobre a ‘mulher em si’ – este é um dos piores progressos no enfeamento geral da Europa. Pois o que não revelarão essas grosseiras tentativas de cientificidade e autodesnudamento femininos! A mulher tem muitos motivos para o pudor: há tanta coisa pedante, superficial, sabichã, mesquinhamente arrogante, mesquinhamente irrefreada e imodesta escondida na mulher. (…) Se ela começar a desaprender radicalmente e por princípio sua arte e manha, a da graciosidade, do jogo, do afastar aflições, de aliviar e tomar com leveza, e sua refinada aptidão para desejos agradáveis!” (Além do bem e do mal § 232). A mulher em si é aquela que quer de qualquer maneira encontrar a sua verdade para poder se afirmar como tal. A verdade da mulher é a sua prisão. O que há de belo na mulher é justamente o seu lado sombrio, misterioso, enigmático, que suas máscaras encobrem. É neste sentido que, para Nietzsche “a mulher está em regressão” (Além do bem e do mal § 239). A busca pela verdade e, mais ainda, o sentimento de posse da sua verdade é o que a torna pedante, arrogante e imodesta. É disto que ela deveria se envergonhar, pois enquanto captura a sua verdade desaprende a sua graciosidade.

“Quando uma mulher tem inclinações eruditas, geralmente há algo errado com sua sexualidade. Já a esterilidade predispõe a uma certa masculinidade do gosto; pois o homem é, permitam-me lembrar, ‘o animal estéril’”. (Além do bem e do mal § 144). Considerando que o estéril é o que não produz, o que não dá fruto, Nietzsche aqui não está depreciando a mulher; ao contrário, está depreciando a erudição, o saber monumental, a Grande Verdade. A erudição é o oposto da criação. Erudição é o saber já pronto, já constituído, enquanto a força da criação aponta para o que ainda está por vir – um pensamento intempestivo que não se limita a afirmar uma verdade já existente, mas põe-se num movimento contínuo de irrupção do novo. “Desde o início nada é mais alheio, mais avesso, mais hostil à mulher que a verdade – sua grande arte é a mentira, seu maior interesse, a aparência e a beleza” (Além do bem e do mal § 232). A beleza mais que a verdade é o que interessa a Nietzsche.

Quanto mais a mulher se “conhece”, mais ela se perde. Cada vez mais ela deixa de ser mulher. Se para Nietzsche a mulher não é apta para o conhecimento, é porque ela é apta para a vida. E na crítica que faz ao mundo moderno, o conhecimento aparece como o grande algoz que faz com que a vida se transforme numa grande prisão e, consequentemente, em uma miséria.

Nietzsche e as mulheres – parte IV

por M. Sales

A mulher realizada

Para Nietzsche “a mulher aprende a odiar na medida em que desaprende a enfeitiçar” (Além do bem e do mal § 84). Enfeitiçar aqui no sentido de seduzir, de encantar, de deixar os outros com queixo caído e água na boca.

O que Nietzsche critica na mulher, mas também no homem, é a sua doença. Diz: “A mulher doente em especial: ninguém a supera em refinamento para dominar, oprimir, tiranizar. Nisso a mulher doente nada poupa, vivo ou morto, ela desenterra de novo as coisas mais profundamente enterradas” (Genealogia da Moral § 14 da terceira dissertação). A mulher doente é amarga, competitiva e vitimada. Ela prefere o ódio ao amor; mas não percebe que este último é muito mais feroz que o primeiro.

Já uma mulher saudável é realizada. Ao se considerar próximo de Dionísio, Nietzsche acredita ter herdado dele um dom que o permitiu ser o “o primeiro psicólogo do eterno-feminino”. E acerca das mulheres diz: “Todas elas me amam – uma velha história: excetuando as mulherezinhas vitimadas, as ‘emancipadas’, as não aparelhadas para ter filhos. – Felizmente não estou disposto a deixar-me despedaçar: a mulher realizada despedaça quando ama… Eu conheço essas adoráveis mênades… Ah, que perigoso, insinuante, subterrâneo bichinho de rapina! E tão agradável, além disso!…” (Ecce Homo, p. 58). Ele opõe a mulher vitimada à mulher realizada. A vitimada é aquela que se coloca sempre no sentido da falta e que, por isso mesmo, quer se vingar. Falta-lhe algo: precisamos ser como os homens, possuir o que eles possuem. Já a realizada é plena, basta-se a si mesma. Ela não quer a igualdade porque já tem o que precisa. O que ela quer é justamente preservar-se na diferença. “A luta por direitos iguais é inclusive um sintoma de doença: qualquer médico o sabe. – A mulher, quanto mais é mulher, mais se defende com unhas e dentes contra os direitos em geral: o estado de natureza, a eterna guerra entre os sexos, dá-lhe de longe a primeira posição” (Ecce Homo, p. 59).

Nietzsche e as mulheres – parte V

por M. Sales

As artimanhas (artes e manhas) da mulher

Sabemos que Nietzsche produz uma filosofia de inspiração dionisíaca e que Dionísio é o deus da embriaguez, da insensatez, do disfarce, das máscaras. Neste sentido, sua filosofia está bem próxima das mulheres:

Máscaras – Há mulheres que, por mais que as pesquisemos, não têm interior, são puras máscaras. É digno de pena o homem que se envolve com estes seres quase espectrais, inevitavelmente insatisfatórios, mas precisamente elas são capazes de despertar da maneira mais intensa o desejo do homem: ele procura a sua alma – e continua procurando para sempre”. (Humano demasiado humano § 405) Que belo elogio. Não ter interior é não se prender a um eu fixo, imóvel, estático. As máscaras indicam a capacidade de mudança. Por isso é praticamente impossível entender as mulheres.

O intelecto feminino – O intelecto das mulheres se manifesta como perfeito domínio, presença de espírito, aproveitamento de toda vantagem. Elas o transmitem aos filhos, como sua característica fundamental, e a isso o pai acrescenta o fundo mais obscuro da vontade. A influência dele determina, por assim dizer, o ritmo e a harmonia com que a nova vida deve ser tocada; mas a melodia vem da mulher”. (Humano demasiado humano § 411). A melodia vem da mulher como uma música que sai da natureza. É que seu intelecto é muito mais corpo que razão; muito mais instinto que consciência; muito mais intuição que percepção.

Ao sublinhar a diferença fundamental entre homem e mulher, Nietzsche não está legislando em causa própria. Pelo contrário, para ele a mulher em muitos aspectos está à frente do homem. A grande questão é encontrar o valor desta diferença. “Equivocar-se no problema fundamental ‘homem e mulher’, nele negar o mais profundo antagonismo e a necessidade de uma tensão hostil, e sonhar talvez com direitos iguais, igual educação, reivindicações e deveres iguais: eis um sinal típico de superficialidade” (Além do bem e do mal § 238).

O que comumente se considera fraqueza na mulher, para Nietzsche, é a sua força. Sua grandeza não consiste em equiparar-se ao homem, mas justamente em ser diferente. Suas armas não são o conhecimento ou a política, mas armas muito mais sutis e perigosas como, por exemplo, a beleza, a sedução e a mentira. Portanto, o que Nietzsche descreve acerca da mulher é justamente o que há de mais valioso na sua própria filosofia. Se ele “acusa” a mulher de falsa, superficial, de só se importar com a aparência é justamente para ressaltar esses valores. Seria isto a transvaloração de todos os valores. Para ele não há verdade, nem profundidade, nem essência – tudo é obscuro, como a mulher.

Neste sentido, ao afirmar a “inferioridade” da mulher, ele o faz em um sentido completamente diferente, que diz respeito ao que há de mais fundamental. Afinal, os alicerces ficam na região inferior. Nietzsche é um filósofo dos subterrâneos. Mas também ao afirmar a sua “superficialidade” é para dizer que nada importa mais do que a aparência. O que há de profundo se vê na aparência – “o mais profundo é a pele”, nos lembra Paul Valéry.

Nietzsche e a grande saúde

por M. Sales

 

a grande saúde – uma tal que não apenas se tem, mas constantemente se adquire e é preciso adquirir, pois sempre de novo se abandona e é preciso abandonar…” (A gaia ciência, § 382)

 

A saúde de que nos fala Nietzsche é uma espécie de potência criativa. Quando alguém é capaz de criar alguma coisa nova essa força que o impulsiona é uma manifestação da grande saúde. Acontece que para se criar algo novo é preciso, muitas vezes, rejeitar o velho ou pelo menos exercer um certo distanciamento que possibilite um diálogo aberto. Não se enxerga o novo com um olhar viciado no que já existe, marcado pelo hábito e pela crença. Por isso que a grande saúde compreende um acúmulo de energia que potencializa a existência tornando-a sempre outra, renovando-a. Para Nietzsche consiste em entender a vida como uma obra de arte que está sendo constantemente realizada. Uma obra inacabada que está sempre em composição.

A grande saúde é a expressão da singularidade que está para além das formas concebidas de identidade. Enquanto a identidade limita, padroniza, classifica, impondo um formato considerado ideal, a singularidade é o que afirma o que está por vir, por ser inventado de modo único.

Podemos então associar a idéia de grande saúde com a experiência de criação dos artistas, dos cientistas e dos filósofos. Com certeza! Mas Nietzsche pensa também na grande saúde que deve estar presente em cada um de nós e que se manifesta quando afirmamos a vida de forma criativa e quando inventamos novos modos de existência. A grande saúde, deste modo, pode estar presente quando possibilitamos encontros entre experiências diversas, construímos novas amizades, produzimos ações políticas, afetamos o meio onde vivemos com gestos simples e singulares, agenciamos acontecimentos que tornem a vida digna der ser vivida, cavamos espaço para a liberdade.

Deleuze: por uma filosofia dançante

por M. Sales

” (…) trata-se de fazer do próprio movimento uma obra, sem interposição; de substituir representações mediatas por signos diretos; de inventar vibrações, rotações, giros, gravitações, danças ou saltos que atinjam diretamente o espírito.” (Diferença e repetição)

Um pensamento que seja a expressão do movimento e que seja ele mesmo um movimento. A dança do pensamento que não quer se prender a nenhum passo e nem se deter em nenhum compasso. Um pensamento sempre por vir, por inventar, por criar; por se fazer, se desfazer, se refazer; por se deslocar, se inovar, se transformar. Pensamento vertiginoso que não se contenta em legitimar o que já se saber, mas que explora sempre as possibilidades. Quando se pensa seguro no porto, logo se vê de novo em alto mar.

Deleuze fez a festa dos filósofos. Colocou Hume, Kant, Espinosa, Leibniz, Nietzsche, Bergson, Foucault e outros pra dançar. E dançou juntamente com todos eles. Para ele a filosofia é uma grande dança.

Harry d’ O lobo da estepe aprendeu tantas coisas, mas não sabia dançar. “Sempre metido em coisas difíceis e complicadas, e não aprendeu as fáceis” (Hermann Hesse). Para aprender a dança da filosofia é preciso primeiro senti-la; respirá-la com o ar da vida. A filosofia como a dança da vida, eis o que nos sugere a filosofia bailante de Deleuze.

E já que se trata de dança, dancemos ao “som” de Trem bala:

Dispara um trem bala, veloz feito luzes/ E integra a estação razão à intuição/ Por meio do teu nome ausente em mim reluzes/ Enquanto um garotinho empurra o seu limão/ A blitz ali na frente diz que aqui, a onda/ Tá mais pro Haiti do que pro Havaí/ Se as coisas nos reduzem simplesmente a nada/ Do nada simplesmente temos que partir/ O que fazer agora?/ Dispara o trem bala veloz feito luzes/ Uma criança chora?/ Do nada simplesmente temos que partir/ Produzir vibrações rotações girassóis/ danças saltos gravitações/ Inventar novas metas e setas que vão/ Disparar novos corações/ O céu está nublado?/ As nuvens serão tela para o filme que se quer projetar nas nuvens. (João Bosco/Antonio Cícero/Waly Salomão)

A filosofia antiga: uma leitura foucaultiana

por M. Sales

 

 

Quando se falava em filosofia antiga, pouca atenção era dada ao período helenístico e romano, permanecendo na sombra as escolas ou correntes filosóficas que marcaram este período, tais como: o neoplatonismo, o aristotelismo, o epicurismo, o cinismo, o ecletismo, o pirrorismo e também o estoicismo. No entanto, a partir do século XX e, mais precisamente na década de 80, este cenário vem sendo alterado pelo interesse crescente e pelo resgate frutífero em torno destes pensamentos.

Um bom exemplo é a apropriação feita por Michel Foucault. Suas últimas pesquisas, em torno do cuidado de si, baseiam-se nos ensinamentos e práticas realizados nestas diferentes escolas filosóficas da antiguidade.

Mas em que sentido um pensamento antigo pode servir para se pensar a nossa atualidade?

O uso que Foucault faz da filosofia helenística e romana visa principalmente pensar a relação do indivíduo consigo mesmo, com seu modo de viver, para além de uma instância normativa, judicativa, legalizadora como é o caso do Estado. O que está em jogo neste retorno é a atenção dada à singularidade em detrimento da idéia de formação de identidade. O que se busca é o resgate de uma potência criadora que possa resistir às artimanhas das relações de poder e tornar possível uma experiência da liberdade.

Márcio Sales

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10 Comentários »

  1. O problema crucial é o seguinte: a filosofia aspira à verdade total, que o mundo não quer. A filosofia é, portanto, perturbadora da paz. E a verdade, o que será? A filosofia busca a verdade nas múltiplas significações do ser verdadeiro segundo os modos do abrangente. Busca, mas não possui o significado e substância da verdade única. Para nós a verdade não é estática e definitiva, mas movimento incessante, que penetra no infinito. No mundo, a verdade está em conflito perpétuo. A filosofia leva este conflito ao extremo, porém o despe de violência. Em suas relações com tudo o quanto existe, o filósofo vê a verdade revelar-se a seus olhos, graças ao intercâmbio com outros pensadores e ao processo que o torna transparente a si mesmo. Quem se dedica à filosofia põe-se à procura do homem, escuta o que ele diz, observa o que ele faz e se interessa por sua palavra e ação, desejoso de partilhar, com seus concidadãos, do destino comum da humanidade. Eis por que a filosofia não se transforma em credo. Está em contínua luta consigo mesma. (JASPERS, Karl.Introdução ao Pensamento Filosófico)

    Comentário por Jasmim | 25/06/2008 | Responder

  2. Segundo Drommond, a verdade é sempre aquilo que não temos. Por isso a perseguimos, de vez em quando encontramos uma parte, mas sempre sentiremos falta dela.
    Ótimo texto Jasmim. Valeu!!!

    Comentário por marciosales | 29/06/2008 | Responder

  3. “Porque é que se sobrestima o amor em detrimento da justiça e se diz dele as coisas mais lindas, como se ele fosse uma entidade muito superior àquela? Pois não é ele visivelmente mais estúpido que aquela? Por certo, mas, precisamente por isso, tanto mais agradável para todos. Ele é estúpido e possui uma rica cornucópia; tira desta os seus presentes e distribui-os a qualquer pessoa, mesmo que esta não os mereça e até nem sequer lhe agradeça por isso. É imparcial como a chuva, a qual, segundo a Bíblia e a experiência, não só encharca o injusto até aos ossos, mas também, em determinadas circunstâncias, o justo. “

    Friedrich Nietzsche, in ‘Humano, Demasiado Humano’

    Não sei o motivo, pelo qual, não consigo manter um diálogo com Nietzche, ele me angustia. Sempre que leio, procuro manter um diálogo com o autor, tentando compreender seus argumentos. Nietzche, apesar de inteligente é muito intrigante, ele traz em suas palavras “um fantasma” que talvez não seja tão ameaçador, mas perturbador.
    Concordo quando diz que sobrestimamos o amor em detrimento da justiça. Muitas vezes justificamos nossos atos injustos dizendo que foi por amor. Porém, discordo ao citar a Bíblia, pois segundo a Bíblia o amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera tudo suporta.

    Comentário por Jasmim | 30/06/2008 | Responder

  4. “Se uma mulher tem inclinações eruditas é porque, em geral, há algo de errado na sua sexualidade. A esterilidade predispõe a uma certa masculinidade do gosto; é que o homem, com vossa licença, é de fato «o animal estéril» – Nietzsche

    “O homem será preparado para a guerra e a mulher para passatempo do guerreiro. O mais é loucura.” – Nietzsche

    “As mulheres têm muito de que envergonhar-se; há na mulher muito pedantismo, superficialidade, primarismo escolar, vaidadezinha, desmesura e indiscrição oculta…que tem sido restringida e dominada por medo do homem”. – Nietzsche (“Para lá do Bem e do Mal”)

    Apesar de sua mente brilhante e de suas contribuições tão importantes para a história do moderno pensamento ocidental, não consigo estabelecer um diálogo com este senhor. Realmente eu já tentei. Gostaria de saber, o porquê de tanto machismo? Não é a toa que enlouqueceu ao poucos, e morreu 1900, pobre, sozinho e nunca verdadeiramente amado.

    Comentário por Jasmim | 09/07/2008 | Responder

  5. Cara Jasmim, seu último comentário rendeu pano pra manga. Como sou um leitor curioso que preza pela troca de idéias, me aventurei em alguns palpites sobre essa intrigante relação entre Nietzsche e as mulheres. Uma coisa tá sendo boa: reencontrar Nietzsche. Faz tempo que não o lia. Vamos ver no que vai dar!

    Comentário por marciosales | 10/07/2008 | Responder

  6. A escravatura humana, não está extinta, atingiu o seu ponto culminante na nossa época sob a forma do trabalho livremente assalariado, e há muitos que a apoia e por seu intermédio anda regalado. E quanto a mulher, ainda hoje, em pleno século XXI, tem sido um desafio para as mulheres se fazerem reconhecidas como “seres pensantes. Não são poucos os ineptos que se utilizam das “piadinhas” para menosprezar as loiras, as mais vaidosa, associando a beleza feminina à burrice. O mais interessante é que a mulher sofre não só a discriminação mais também a covardia, pois, a maioria dos homens destila seu preconceito de maneira jocosa, dissimulando de forma “engraçada” sua falta de apreço pela mulher quanto ser humano, ser racional. O que você chama de “uma grande ironia, um grande jogo, uma grande anedota” eu chamaria de impassibilidade.
    A dicotomia mente/corpo sempre foi tema relevante entre pensadores de várias épocas da humanidade. A consciência, ainda hoje, é considerada uma função puramente intelectual em oposição ao corpo. Concordo que Nietzsche era um homem inserido em seu tempo onde a discriminação contra a mulher era patente, peculiar, porém, não menos cruel que em nossos dias. Inclusive, Kant disse que a mulher se utilizava de seus livros da mesma forma como se servia de seu relógio: ela usava-o para que vissem que tinha um, não se importando que este estivesse parado ou que não marcasse a hora certa.
    Minha indignação contra Nietzsche, seria justamente por saber que apesar de inserido no seu tempo, ele era nada convencional. Era um homem de controvérsia, inserido, mas não comprometido com sua era, Nitzsche não se deixava enformar, não se detinha diante dos paradigmas, polêmico, não condescendente as opiniões alheias.
    Infelizmente, já se foi um pouco mais de um século e eu não consigo achar graça, justamente, porque em nosso presente, ainda existe muito deste pensamento obsoleto. Talvez, quem sabe um dia, a nossa risada tenha futuro!
    Entretanto, no século XX, não sem grande esforço, destacaram-se algumas filósofas importantes. Dentre elas, encontram-se Hannah Arendt, Simone Weil, Edith Stein, Mari Zambrano e Rosa Luxemburgo. Mulheres, contrariando o preconceito de seu tempo, foram filósofas importantes e, sem dúvida, contribuíram decisivamente para a construção do conhecimento. Eu, bem que gostaria, caro Filósofo, de vê-las por aqui. Pois, não tenho certeza, mas tenho esperança, que seja um “gentleman”, um pensador comprometido, não somente, com seu o tempo, mas principalmente, com suas ponderadas convicções.
    Seria pedir-lhe muito que uma melhor explicação sobre a seguinte afirmação:.” A questão, me parece, é outra. Ao disparar terríveis flechas contra a mulher não é exatamente em relação ao que ela é que ele se dirige; mas contra o que ela está se tornando. Pra ser mais claro, contra a regressão da mulher (Além do bem e do mal § 239). A mulher dos tempos modernos estaria se afastando da sua natureza e imprimindo para si um ritmo de vida decadente.”
    E poderia também me responder quanto à figura masculina, será que ela se mantém em seu estado perfeito? Quanto ao homem, não tem estabelecido para si um ritmo de vida decadente?
    Nietzsche tem um pensamento muito bonito: “A grandeza do homem consiste em que ele é uma ponte e não um fim; o que nos pode agradar no homem é ele ser transição e queda.” Posso dizer que suas explicações têm sido indispensáveis para que possa transitar por Nietzsche. Obrigada.

    Comentário por Jasmim | 12/07/2008 | Responder

  7. Olá Jasmim!!! Os rótulos são horríveis e as piadinhas de mau gosto também. Vivemos de fato muitos preconceitos que impedem de enxergarmos além do muro. Mas é justamente dos preconceituosos que se julgam donos da verdade que se deve rir; de suas mesquinharias escondidas atrás das belas convenções. O combate deve ser regado de humor. Aliás, o riso é a faca mais afiada e, como diria Manoel de Barros, “a alegria é a prova dos nove”. Desconfio das críticas rancorosas e carrancudas pois muitas vezes expressam ressentimento e vingança. Mas não é das mulheres que Nietzsche ri, pelo menos não de todas. Se ele fosse impassível às mulheres não daria tanta atenção à elas em seus escritos. E hoje, de fato, temos mulheres maravilhosas em todas as áreas. Poetizas, filósofas, compositoras, pintoras etc. Aqui no boteco as mulheres têm lugar cativo…

    Comentário por marciosales | 14/07/2008 | Responder

  8. É engraçado, parece que a Jasmim nem leu o post sobre as mulheres que o editor do blog escreveu.

    É sobre isso inclusive meu post aqui. Tentando remediar o que Nietzsche escreveu (o que interpretaram os leitores) sobre as mulheres, cria-se novamente um desequilíbrio na balança.

    Comentário por Rafael T. | 20/02/2009 | Responder

  9. Não gostei do pensamento machista desse tal de Nietzsche , mas achei bem interessante conhecer um pouco mais sobre este assunto que éra desconhecido por mim.

    Comentário por Carolina | 01/06/2009 | Responder

  10. Apreciei as informações trazidas apesar de carecer de maiores explicações didáticas. Parabéns pelo blog. Abs Gisele

    Comentário por Gisele Leite | 07/11/2012 | Responder


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