No boteco

“Mora na filosofia…”

A filosofia é um trabalho do pensamento que vai das idéias já elaboradas até a ousadia de arriscar novas idéias. Em todo caso, trata-se de um pensamento sobre a realidade. Não no sentido de descrever a realidade nem tampouco de explicá-la; mas no sentido de problematizá-la. E problematizar quer dizer analisá-la no seu próprio movimento, na sua própria transformação, no seu próprio devir, a partir das condições existenciais concretas, ou seja, das situações vividas. A filosofia é um pensamento concreto que opera em relação estreita com a vida. Mais que procurar um sentido para a vida, a filosofia cria novos modos de viver.

Há uma força ou um conjunto de forças que arrasta a atividade filosófica para uma permanente renovação de si mesma. Por isso ela está sempre retornando às suas origens, ao seu passado grego, mas para manter-se numa distância que diz respeito aos problemas da sua atualidade. O retorno é um meio de compor com as forças de um pensamento já existente, com as potências dos conceitos já elaborados. Mas não se trata, em hipótese alguma, de transpor esses conceitos de forma indiscriminada. É sempre em função dos problemas de cada época, de cada contexto histórico que a filosofia se afirma como tal.

Um dos conceitos fundamentais na experiência grega da filosofia é a noção de logos. Ela indica o próprio ato de pensar, de raciocinar. É a potência mesma da filosofia que é traduzida como razão. Muitos filósofos gregos a consideravam a inteligência divina que move e governa o mundo. Heráclito era um deles. Mas ela pode ser compreendida também como palavra. Palavra como ato e corpo do pensamento; a materialidade viva do pensamento. O logos é, pois, esse pensamento vivo encarnado na palavra.

Sendo assim, a relação entre pensamento e palavra se justifica na força do conceito de logos. E a filosofia sendo a experiência do pensamento é também a experiência da palavra: falada ou escrita. Deste modo, quando se pergunta sobre o ofício do filósofo a resposta imediata é: pensar. Mas este pensar é tecido com as palavras. É sabido que Sócrates não deixou para a posteridade um legado de textos; mas suas idéias transmitidas oralmente chegaram até nós pelo trabalho de escriba do seu discípulo Platão. Doravante, além da palavra falada o filósofo pôs-se a escrever.

Márcio Sales

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11/01/2011 - Posted by | Uncategorized

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