No boteco

Surfar sobre o caos

Nada mais caótico do que as ondas do mar. Turbulenta, inconstante, imprevisível, agitada, feroz… E chega o surfista veloz e a domina. Acariciando sua crista com a leveza da prancha faz um corte no caos. Por cima, por baixo, entre… Ela só faz lhe servir para que o espetáculo aconteça. Espetáculo do movimento, do enfrentamento, do jogo de cintura. Às vezes ela o derruba. Mas tudo faz parte da brincadeira. Neste jogo não tem regras, apenas táticas. É uma questão de experimentação. O surfista observa lentamente as ondas e espera o momento certo de encará-las. É um estrategista.

Para Deleuze, a filosofia é uma maneira de enfrentar o caos. Não fugir ou ir contra ele; mas traçar um plano no caos. “Trata-se sempre de vencer o caos por um plano secante que o atravessa”. Furar o caos como se fura uma onda, para “fazer passar uma corrente de ar, saída do caos, que nos traga a visão”. O movimento caótico do mundo é o que torna possível o pensamento. Não há pensamento na ordem estabelecida. É preciso mergulhar no caos para extrair daí novas composições. “O que o filósofo traz do caos são variações que permanecem infinitas”. Por isso que Deleuze gostava tanto do surf e o considerava um esporte próximo da filosofia.

m sales

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28/09/2010 - Posted by | Uncategorized

4 Comentários »

  1. “… É preciso mergulhar no caos para extrair daí novas composições.” Esses seus textos são minhas doses homeopáticas de filosofia. O teu boteco atualmente é a minha botica, mas vc deveria botar um aviso bem grande nesse blog: CUIDADO! O CONTEÚDO VICIA!
    bjs

    Comentário por Mônica Vallim | 04/10/2010 | Responder

  2. Oi Mônica, a idéia é mesmo servir doses de pensamento, poesia, diversão… pra quem quiser “beber”, sem moderação. Como toda moeda tem dois lados, aqui também cabe o excesso, o exagero, o vício, a loucura, a transgressão. Parafraseando o Chico, “o que não tem governo nem nunca terá”.
    Bjs

    Comentário por marciosales | 10/10/2010 | Responder

  3. Noossa! Que analogia legal! Comecei a viajar aqui, enquanto lia e fui percebendo minha vida como uma grande onda, uma verdadeira tsunami! rsrs E eu um reles surfistinha, iniciante, tomando caxote direto… rsrs Acho que tenho que começar a nadar na prancha antes que querer ficar em cima dela. Saber prender a respiração quando uma enorme onda se aproximar, mas não fugir dela. Não me amedrontar com o tamanho dos problemas, digo, “ondas” rs
    Perceber as ondas, o vento, o sol (ou ausência dele), se a maré tá cheia ou não, antes de escolher o melhor lugar pras minhas manobras rsrs
    Viu, não falei que eu tava viajando?
    Pra quê psicólogo? A parada agora é filosofia terapêutica!
    hahahahhaa
    bjus, Marcio! Brigadinha, tá? 🙂

    Comentário por Erica Athenah | 25/10/2010 | Responder

    • Que ótimo Erica. Essa idéia da filosofia como terapêutica é mesmo bem legal. Me fez lembar de Epicuro e o seu tetrapharmacon: quatro “drogas” para a felicidade!!!
      Bjs, Márcio

      Comentário por marciosales | 26/10/2010 | Responder


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