No boteco

Educação clandestina

O Brasil é formado por uma mistura de povos: os índios, os portugueses, os africanos, os franceses, os holandeses e assim por diante. A terra do pau-brasil, da cana de açúcar e das minas de ouro atraiu muitos olhares e provocou um turbilhão de experiências. Mas sempre sob a mira atroz e feroz de um Estado dominante, cujos interesses tinham que prevalecer a qualquer preço. Foi assim que a educação brasileira passou a ser conduzida pelas mãos ambiciosas dos jesuítas. Essa educação pretendia, dentre outras coisas, produzir uma população dócil, obediente, servil e cristã. Afinal, a demanda por mão de obra barata era grande. E de fato este objetivo foi atingido com uma boa parcela de colonos.

capitao-de-areia

Mas nem todos se adaptaram ao modelo imposto. Houve por parte de índios, negros, brancos e mestiços, que não se submeteram ao sistema opressor, uma forte resistência. Considerados hereges, insubmissos e desalmados, foi instalada uma batalha sangrenta em nome da santa cruz da igreja. Como o “argumento” bélico dos colonizadores era mais consistente e convincente, o genocídio foi inevitável. Mas nem todos que restaram se renderam; e, de forma marginal, preservaram valores de suas culturas sem os quais deixariam de existir. Para citar apenas um exemplo da parte dos negros, basta lembrarmos dos movimentos dos Quilombos e da viva presença entre nós da religiosidade africana, da capoeira, da culinária etc. Como estes elementos resistiram à pressão? Uma educação paralela, clandestina, subversiva foi desenvolvida e alastrada sorrateiramente no interior da nossa cultura. Os escritos de Jorge Amado acentuam com nitidez este processo que se desenvolveu nas margens da sociedade e na sombra do controle do Estado. Podemos citar como exemplo a formação de bandos, como os bandos de crianças que aparecem em Capitães de areia, tão bem destacados pelo filósofo francês Gilles Deleuze ao analisar os mecanismos coletivos de conjuração de um aparelho de Estado ou de seus equivalentes.

Esta educação clandestina nos legou o valor da luta e da força criativa. Ao longo da nossa história não faltam exemplos que chamam a atenção para a força que resiste e cria em meio a situações extremamente adversas. Se, por um lado, carregamos em nossa formação uma educação elitista, classificatória e etnocêntrica, por outro lado, não podemos negar o valor de uma educação informal, espontânea e, por que não dizer, uma educação antropofágica.

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06/04/2009 - Posted by | Uncategorized

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