No boteco

Palavras sem órgãos

umaestrada2

O sentido das palavras não faz bem ao poema.
Há que se dar um gosto incasto aos termos.

Haver com eles em relacionamento voluptuoso.
Talvez corrompê-los até a quimera.
Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.
Não existir mais rei nem regências.
Uma certa liberdade com a luxúria convém.

O manoelez é uma maneira de brincar com as palavras; de lhes roubar o sentido e deslocá-los para outra direção – Instala-se uma agramaticidade quase insana, que empoema o sentido das palavras. É uma maneira de tirar os órgãos do corpo da palavra e torná-la agramatical. A palavra entra em composição com o seu ambiente. Nunca é a palavra apenas; mas a palavra fecundada por aquilo que a toca – A água passa por uma frase e por mim..

Bernardo escreve escorreito, com unhas, na água,
O Dialeto-Rã.*
Nele o chão exubera.
O Dialeto-Rã exara lanhos.
Bernardo conversa em rã como quem conversa em
Aramaico.
Pelos insetos que usa ele sabe o nome das chuvas.

* Falado por pessoas de águas, remanescentes do Mar de Xaraiés, o Dialeto-Rã, na sua escrita, se assemelha ao Aramaico – idioma falado pelos povos que antigamente habitavam a região pantanosa entre o Tigre e o Eufrates. Sabe-se que o Aramaico e o Dialeto-Rã são línguas escorregadias e carregadas de consoantes líquidas. É a razão desta nota.

– E as palavras, têm vida?
– Palavras para eles têm carne aflição pentelhos – e
a cor do êxtase.

(Ver o Poema 12 de O guardador de águas na seção poesia)

Anúncios

27/02/2009 Posted by | Uncategorized | Deixe um comentário