No boteco

Poesia de trapo

flor33

O gosto pelo chão é também o gosto pelo trapo, pelo imundo, pelo
rejeitado, pelo traste. O que se pode fazer em favor da poesia? No que
Manoel responde: “Deixar os substantivos passarem anos no esterco,
deitados de barriga, até que eles possam carrear para o poema um gosto
de chão – como cabelos desfeitos no chão – ou como o bule de Braque –
áspero de ferrugem, mistura de azuis e ouro – um amarelo grosso de ouro
da terra, carvão de folhas”
. Ainda insiste:
– Você sabe o que faz pra virar poesia, João?
– A gente é preciso de ser traste.


A beleza na pobreza. A liberdade na fealdade. O traste é enjeitado e
por isso mesmo é livre. É como aquela musiquinha de criança: nós gatos
já nascemos pobres, porém já nascemos livres…
Encontrar o valor das
coisas inúteis é arrancar poesia do trapo.

Vou procurar com os pés essas coisas pequenas do
chão perto do mar

Quem anda no trilho é trem de ferro
Sou água que corre entre as pedras:
– liberdade caça jeito

O poema é antes de tudo um inutensílio.
Hora de iniciar algum
convém se vestir de trapo.

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26/02/2009 Posted by | Uncategorized | Deixe um comentário