No boteco

Devires

pintando-musica

Em Manoel de Barros todos os devires são possíveis. Devir-árvore, devir-concha, devir-inseto, até devir-pedra. É que para ele um corpo não tem órgãos; um corpo é feito de potências. Por isso diz que sua poesia é feita de corpo e, assim sendo, não deve ser compreendida, mas incorporada. E um corpo pode co(r)pular com outro corpo e fazer novos compostos, novas experimentações, novas linguagens como bem aparece nos poemas de Manoel, ele mesmo de barros:

Um João foi tido por concha
atrapalhava muito ser árvore – assim como
atrapalhava muito
estar colado em alguma pedra

Seu rosto era trancado
com dobradiças de ferro
para não entrar cachorro

Os devires não apenas são possíveis como intercambiáveis. É possível passar de um devir a outro e, quando desejar ou enquanto desejar, permanecer nele, ali, trancado, com dobradiças de ferro, para não agitar o devir.

17/02/2009 Posted by | Uncategorized | 1 Comentário