No boteco

Devir-inseto

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Há muito que se aprender com os insetos. Em seu Glossário de transnominações em que não se explicam algumas delas (nenhumas) ou menos, Manoel de Barros apresenta algumas matérias de poesia. E acerca dos insetos tece uma bela teia:

Inseto, s.m.

Indivíduo com propensão a escória
Pessoa que se adquire da umidade
Barata pela qual alguém se vê
Quem habita os próprios desvãos
Aqueles a quem Deus gratificou com a sensualidade
(vide Dostoievski, Os irmãos Karamazov)

Mas é de Kafka que me lembrei e do devir-inseto de Gregor.
Até uma lesma passa na frente de Barros e deixa seu rastro:

Lesma. S.f.

Semente molhada de caracol que se arrasta
sobre as pedras deixando um caminho de gosma
escrito com o corpo
Indivíduo que experimenta a lascívia do ínfimo
Aquele que viça de líquenes no jardim

No cancioneiro popular brasileiro também há uma boa referência e reverência aos insetos:

Bichos escrotos (Titãs)

Bichos escrotos, saiam dos esgotos
Bichos escrotos, venham enfeitar
Meu lar,
Meu jantar,
Meu nobre paladar

A idéia de um devir-inseto também era apreciada por Deleuze que a associava à experiência molecular. Os insetos por serem minúsculos fabricam fendas muitas vezes imperceptíveis e, através delas, minam os terrenos, invadem territórios, desabam estruturas. Potência extraordinária para seres tão ínfimos.

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10/02/2009 Posted by | Uncategorized | Deixe um comentário