No boteco

Devir-chão

chao3

Enlouqueceu de vez. Onde já se viu devir-chão? Chão é sinônimo de ralés, de rebaixamento, de coisa rasteira, sem valor, inútil. “O artista recolhe neste quadro seus companheiros pobres do chão: a lata a corda a borra vestígios de árvores etc.” (Manoel de Barros, Gramática expositiva do chão). Ninguém quer as coisas do chão, só as do alto. Mas ele não. Ele ama o chão e não o céu, o sub e não o sobre, o menor e não o maior. Poesia menor, literatura menor, filosofia menor. Vidas infames. Nada que tenha utilidade. O que não quer dizer que não tenha função. O valor das coisas deve ser medido pelo funcionamento e não pela utilidade. Uma poesia não tem utilidade nenhuma. Mas ela funciona. Funcionar é mover, é fazer mover, é sair ou tirar do lugar. Eu leio uma poesia e… pronto: já não sou mais o mesmo, ela desviou meu olhar, ela me tirou do lugar. Tornou-me melhor, pior, cheio, vazio? Não importa. Ela não tem utilidade. Ela simplesmente funciona, move, exercita, trabalha. O chão é o devir das coisas inúteis, mas altamente funcionais.

O chão reproduz
do mar
o chão reproduz para o mar
o chão reproduz
com o mar

O chão pare a árvore
pare o passarinho
pare a
rã – o chão
pare com a rã
o chão pare de rãs
e de passarinhos
o chão pare
do mar

Ver poema Matéria de poesia na seção poesia.

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07/02/2009 Posted by | Uncategorized | Deixe um comentário