No boteco

Devir-árvore

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A experiência do devir é revolucionária. A capacidade de recusar uma condição imposta ou pré-estabelecida requer uma força impressionante. Dizer não ao Pai requer uma coragem imensa. Pois o Pai nos domina; o Pai sopra nos nossos ouvidos os seus conselhos, os seus ensinamentos, as suas verdades; o Pai representa a essência da autoridade. O Pai é tudo aquilo que está pronto e ordenado. Já o devir é desordem, caos, subversão, toda forma de movimento. Devir-animal, devir-criança, devir-mulher. Contra “o macho adulto branco sempre no comando” (Caetano também já foi estrangeiro). Potências nômades contra a potência das Máquinas. (Cf. o poema A máquina, Manoel de Barros, Gramática expositiva do chão – seção poesia)

Mas seria possível um devir-árvore? Há potências nômades nas árvores que eu posso me apropriar ou me deixar possuir? As árvores não se movimentam. Mas só aparentemente. Na verdade, as árvores se movem sem sair do lugar. Elas bailam em seus encontros com o sol, com a chuva, com o vento, com os pássaros. Eu mesmo conheci um cajueiro que saiu correndo ao encontro do sol. Subiu, subiu, subiu até encontrar de novo a alegria de viver. Precisou lutar muito e vencer, inclusive, aqueles que diziam que não tinha mais jeito. E quando se está feliz se produz muitos frutos.

Manoel de Barros também cantou o devir-árvore:

As plantas

me ensinavam de chão.

Fui aprendendo com o corpo.

Hoje sofro de gorjeios

nos lugares puídos de mim.

Sofro de árvores.

05/02/2009 Posted by | Uncategorized | Deixe um comentário