No boteco

Devir-criança

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Esse Manoel não é mesmo fácil. Olha só! Memórias inventadas. Se são memórias, como podem ser inventadas? O que é inventado é porque tem a ver com o novo. E memórias têm a ver com lembranças do que já existiu. Como pode então ser memórias inventadas? É que no universo da infância as coisas funcionam de outra maneira: tudo é inventado. Daí a célebre fórmula de Manoel: “tudo o que não invento é falso”. O valor está na invenção, na criação do novo. E como nada escapa a esta potência criativa, até as memórias são inventadas. Mesmo o olhar sobre o passado pode ser desdobrado em múltiplos sentidos. Há quem olhe para o seu passado e vê só tristezas e desilusões; há quem tenha medo do passado e dele tenta fugir; há quem reverencie o passado de tal maneira que faz dele sempre maior que o presente. O passado pode ser uma grande prisão que impede de se viver o hoje. Nietzsche falava do perigo deste tipo de olhar para o passado: um olhar que apequena o homem. Sua célebre Consideração Extemporânea Da utilidade e desvantagem da história para a vida é um alerta neste sentido. Mas há quem olhe para o passado com o olhar da renovação. Mais que isso, com o olhar da invenção. Pegar a massa do passado para cozer um novo alimento, com novas misturas, novos temperos, novas formas. Belo olhar! Belo uso das memórias! Mas para tanto também é preciso aprender com as crianças. Um devir-criança, experimentar a potência inventiva da infância é o que nos convida Manoel de Barros.

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02/02/2009 - Posted by | Uncategorized

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