No boteco

Cosmofagia

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Há uma antropofagia generalizada na condição humana. O homem se alimenta do outro homem: da sua história, das suas crendices, da sua arte, do seu pensamento, do seu trabalho etc etc. E assim nos tornamos esse ser híbrido, cheio de todo mundo. Cada um é uma multidão. Mas não pára por aí. Não nos alimentamos apenas das experiências humanas. Somos comedores do universo (cosmos) e de tudo o que nele há. Chico já chamava a atenção para o Brejo da cruz, onde a novidade era se alimentar de luz. Mas é o Manoel de Barros que vai fundo nesta cosmofagia. Tudo come tudo. Não sobra nada nem ninguém.

Na áspera secura de uma pedra a lesma esfrega-se
Na avidez de deserto que é a vida de uma pedra a lesma
escorre…
Ela fode a pedra.
Ela precisa desse deserto para viver.

– A partir da fusão com a natureza esses bichos se
tornaram eróticos. Se encostavam no corpo da natureza
para exercê-la. E se tornavam apêndices dela.
Ou seres adoecidos de natureza. Assim, pedras sonhavam
eles para musgo. Sapos familiarizavam eles com o chão.

28/02/2009 Posted by | Uncategorized | Deixe um comentário

Palavras sem órgãos

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O sentido das palavras não faz bem ao poema.
Há que se dar um gosto incasto aos termos.

Haver com eles em relacionamento voluptuoso.
Talvez corrompê-los até a quimera.
Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.
Não existir mais rei nem regências.
Uma certa liberdade com a luxúria convém.

O manoelez é uma maneira de brincar com as palavras; de lhes roubar o sentido e deslocá-los para outra direção – Instala-se uma agramaticidade quase insana, que empoema o sentido das palavras. É uma maneira de tirar os órgãos do corpo da palavra e torná-la agramatical. A palavra entra em composição com o seu ambiente. Nunca é a palavra apenas; mas a palavra fecundada por aquilo que a toca – A água passa por uma frase e por mim..

Bernardo escreve escorreito, com unhas, na água,
O Dialeto-Rã.*
Nele o chão exubera.
O Dialeto-Rã exara lanhos.
Bernardo conversa em rã como quem conversa em
Aramaico.
Pelos insetos que usa ele sabe o nome das chuvas.

* Falado por pessoas de águas, remanescentes do Mar de Xaraiés, o Dialeto-Rã, na sua escrita, se assemelha ao Aramaico – idioma falado pelos povos que antigamente habitavam a região pantanosa entre o Tigre e o Eufrates. Sabe-se que o Aramaico e o Dialeto-Rã são línguas escorregadias e carregadas de consoantes líquidas. É a razão desta nota.

– E as palavras, têm vida?
– Palavras para eles têm carne aflição pentelhos – e
a cor do êxtase.

(Ver o Poema 12 de O guardador de águas na seção poesia)

27/02/2009 Posted by | Uncategorized | Deixe um comentário

Poesia de trapo

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O gosto pelo chão é também o gosto pelo trapo, pelo imundo, pelo
rejeitado, pelo traste. O que se pode fazer em favor da poesia? No que
Manoel responde: “Deixar os substantivos passarem anos no esterco,
deitados de barriga, até que eles possam carrear para o poema um gosto
de chão – como cabelos desfeitos no chão – ou como o bule de Braque –
áspero de ferrugem, mistura de azuis e ouro – um amarelo grosso de ouro
da terra, carvão de folhas”
. Ainda insiste:
– Você sabe o que faz pra virar poesia, João?
– A gente é preciso de ser traste.


A beleza na pobreza. A liberdade na fealdade. O traste é enjeitado e
por isso mesmo é livre. É como aquela musiquinha de criança: nós gatos
já nascemos pobres, porém já nascemos livres…
Encontrar o valor das
coisas inúteis é arrancar poesia do trapo.

Vou procurar com os pés essas coisas pequenas do
chão perto do mar

Quem anda no trilho é trem de ferro
Sou água que corre entre as pedras:
– liberdade caça jeito

O poema é antes de tudo um inutensílio.
Hora de iniciar algum
convém se vestir de trapo.

26/02/2009 Posted by | Uncategorized | Deixe um comentário

Devires

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Em Manoel de Barros todos os devires são possíveis. Devir-árvore, devir-concha, devir-inseto, até devir-pedra. É que para ele um corpo não tem órgãos; um corpo é feito de potências. Por isso diz que sua poesia é feita de corpo e, assim sendo, não deve ser compreendida, mas incorporada. E um corpo pode co(r)pular com outro corpo e fazer novos compostos, novas experimentações, novas linguagens como bem aparece nos poemas de Manoel, ele mesmo de barros:

Um João foi tido por concha
atrapalhava muito ser árvore – assim como
atrapalhava muito
estar colado em alguma pedra

Seu rosto era trancado
com dobradiças de ferro
para não entrar cachorro

Os devires não apenas são possíveis como intercambiáveis. É possível passar de um devir a outro e, quando desejar ou enquanto desejar, permanecer nele, ali, trancado, com dobradiças de ferro, para não agitar o devir.

17/02/2009 Posted by | Uncategorized | 1 Comentário

Devir-deus

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Um certo Bernardo, guardador de águas, tinha mania de ser deus. Quanto mais se aproximava do chão mais perto chegava de Deus. Bernardo se inventa… Um dia chegou em casa árvore. Quando não é deus, mexe com Deus:

Com as mãos endireita Deus para ele.
O rio conta com os seus cuidados para descer as grotas
– conta
Com as suas bênçãos, com os seus escapulários…
Ele mexe com planta e com épocas.

Com as mãos endireita Deus para ele.

Manoel de Barros diz que ele montou no quintal uma Oficina de Transfazer Natureza. Certamente para brincar de deus. Lá ele já fez:

Duas aranhas com olho de estame
Um beija-flor de rodas vermelhas
Um imitador de auroras – usados pelos tordos.

Todas as vezes que criamos nos tornamos à imagem e semelhança de Deus. Talvez deus seja outra palavra para criação e o ato criativo uma forma de devir-deus. O poeta sofre de devir-deus.

13/02/2009 Posted by | Uncategorized | Deixe um comentário

Devir-inseto

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Há muito que se aprender com os insetos. Em seu Glossário de transnominações em que não se explicam algumas delas (nenhumas) ou menos, Manoel de Barros apresenta algumas matérias de poesia. E acerca dos insetos tece uma bela teia:

Inseto, s.m.

Indivíduo com propensão a escória
Pessoa que se adquire da umidade
Barata pela qual alguém se vê
Quem habita os próprios desvãos
Aqueles a quem Deus gratificou com a sensualidade
(vide Dostoievski, Os irmãos Karamazov)

Mas é de Kafka que me lembrei e do devir-inseto de Gregor.
Até uma lesma passa na frente de Barros e deixa seu rastro:

Lesma. S.f.

Semente molhada de caracol que se arrasta
sobre as pedras deixando um caminho de gosma
escrito com o corpo
Indivíduo que experimenta a lascívia do ínfimo
Aquele que viça de líquenes no jardim

No cancioneiro popular brasileiro também há uma boa referência e reverência aos insetos:

Bichos escrotos (Titãs)

Bichos escrotos, saiam dos esgotos
Bichos escrotos, venham enfeitar
Meu lar,
Meu jantar,
Meu nobre paladar

A idéia de um devir-inseto também era apreciada por Deleuze que a associava à experiência molecular. Os insetos por serem minúsculos fabricam fendas muitas vezes imperceptíveis e, através delas, minam os terrenos, invadem territórios, desabam estruturas. Potência extraordinária para seres tão ínfimos.

10/02/2009 Posted by | Uncategorized | Deixe um comentário

Devir-chão

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Enlouqueceu de vez. Onde já se viu devir-chão? Chão é sinônimo de ralés, de rebaixamento, de coisa rasteira, sem valor, inútil. “O artista recolhe neste quadro seus companheiros pobres do chão: a lata a corda a borra vestígios de árvores etc.” (Manoel de Barros, Gramática expositiva do chão). Ninguém quer as coisas do chão, só as do alto. Mas ele não. Ele ama o chão e não o céu, o sub e não o sobre, o menor e não o maior. Poesia menor, literatura menor, filosofia menor. Vidas infames. Nada que tenha utilidade. O que não quer dizer que não tenha função. O valor das coisas deve ser medido pelo funcionamento e não pela utilidade. Uma poesia não tem utilidade nenhuma. Mas ela funciona. Funcionar é mover, é fazer mover, é sair ou tirar do lugar. Eu leio uma poesia e… pronto: já não sou mais o mesmo, ela desviou meu olhar, ela me tirou do lugar. Tornou-me melhor, pior, cheio, vazio? Não importa. Ela não tem utilidade. Ela simplesmente funciona, move, exercita, trabalha. O chão é o devir das coisas inúteis, mas altamente funcionais.

O chão reproduz
do mar
o chão reproduz para o mar
o chão reproduz
com o mar

O chão pare a árvore
pare o passarinho
pare a
rã – o chão
pare com a rã
o chão pare de rãs
e de passarinhos
o chão pare
do mar

Ver poema Matéria de poesia na seção poesia.

07/02/2009 Posted by | Uncategorized | Deixe um comentário

Devir-árvore

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A experiência do devir é revolucionária. A capacidade de recusar uma condição imposta ou pré-estabelecida requer uma força impressionante. Dizer não ao Pai requer uma coragem imensa. Pois o Pai nos domina; o Pai sopra nos nossos ouvidos os seus conselhos, os seus ensinamentos, as suas verdades; o Pai representa a essência da autoridade. O Pai é tudo aquilo que está pronto e ordenado. Já o devir é desordem, caos, subversão, toda forma de movimento. Devir-animal, devir-criança, devir-mulher. Contra “o macho adulto branco sempre no comando” (Caetano também já foi estrangeiro). Potências nômades contra a potência das Máquinas. (Cf. o poema A máquina, Manoel de Barros, Gramática expositiva do chão – seção poesia)

Mas seria possível um devir-árvore? Há potências nômades nas árvores que eu posso me apropriar ou me deixar possuir? As árvores não se movimentam. Mas só aparentemente. Na verdade, as árvores se movem sem sair do lugar. Elas bailam em seus encontros com o sol, com a chuva, com o vento, com os pássaros. Eu mesmo conheci um cajueiro que saiu correndo ao encontro do sol. Subiu, subiu, subiu até encontrar de novo a alegria de viver. Precisou lutar muito e vencer, inclusive, aqueles que diziam que não tinha mais jeito. E quando se está feliz se produz muitos frutos.

Manoel de Barros também cantou o devir-árvore:

As plantas

me ensinavam de chão.

Fui aprendendo com o corpo.

Hoje sofro de gorjeios

nos lugares puídos de mim.

Sofro de árvores.

05/02/2009 Posted by | Uncategorized | Deixe um comentário

Devir-criança

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Esse Manoel não é mesmo fácil. Olha só! Memórias inventadas. Se são memórias, como podem ser inventadas? O que é inventado é porque tem a ver com o novo. E memórias têm a ver com lembranças do que já existiu. Como pode então ser memórias inventadas? É que no universo da infância as coisas funcionam de outra maneira: tudo é inventado. Daí a célebre fórmula de Manoel: “tudo o que não invento é falso”. O valor está na invenção, na criação do novo. E como nada escapa a esta potência criativa, até as memórias são inventadas. Mesmo o olhar sobre o passado pode ser desdobrado em múltiplos sentidos. Há quem olhe para o seu passado e vê só tristezas e desilusões; há quem tenha medo do passado e dele tenta fugir; há quem reverencie o passado de tal maneira que faz dele sempre maior que o presente. O passado pode ser uma grande prisão que impede de se viver o hoje. Nietzsche falava do perigo deste tipo de olhar para o passado: um olhar que apequena o homem. Sua célebre Consideração Extemporânea Da utilidade e desvantagem da história para a vida é um alerta neste sentido. Mas há quem olhe para o passado com o olhar da renovação. Mais que isso, com o olhar da invenção. Pegar a massa do passado para cozer um novo alimento, com novas misturas, novos temperos, novas formas. Belo olhar! Belo uso das memórias! Mas para tanto também é preciso aprender com as crianças. Um devir-criança, experimentar a potência inventiva da infância é o que nos convida Manoel de Barros.

02/02/2009 Posted by | Uncategorized | Deixe um comentário