No boteco

Manoel, pássaros, devir…

manoel-de-barros-desenho

Devir é mais uma daquelas palavrinhas extraordinárias inventadas pelos gregos. Por mais que se tente, não há nenhuma palavra na língua portuguesa que traduza plenamente o que é o devir. Assim sendo, qualquer tentativa de tradução consiste em um enfraquecimento da sua potência. Melhor então deixar como está e tentar resgatá-la pelas beiradas, pelos exemplos, pelas idéias esparsas.

Manoel de Barros é um poeta do devir. Diz ele:

“Por viver muitos anos dentro do mato

moda ave

O menino pegou um olhar de pássaro –

Contraiu visão fontana.”

O menino passarou. Não, não quer dizer que ele se tornou um pássaro. Muito menos que ele se parece com um pássaro ou tem atitudes de pássaro. Não se trata de metáfora ou qualquer outro tipo de comparação.

O menino contraiu um devir-pássaro. É como se entre ele e o pássaro houvesse uma harmonia, uma linguagem comum, um sentimento compartilhado. É como se o pássaro se sentisse tão à vontade e fizesse um ninho em sua cabeça. É como se ele se sentisse tão próximo e fizesse o pássaro dormir em suas mãos. Mas isto não quer dizer que o devir dependa do contato, de uma convivência conjunta. Contrair o devir-pássaro é contrair a potência do pássaro.

Mas para isso, é preciso se despojar de uma realidade demasiadamente humana. Seria o mesmo que falar uma linguagem sem gramática ou pensar o funcionamento do corpo sem os órgãos. Isto é possível?

Há quem aposte que sim!

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31/01/2009 - Posted by | Uncategorized

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