No boteco

Entre Artaud e Van Gogh

Para encerrar o ano, um belo e intenso texto de Antonin Artaud sobre Vincent Van Gogh.

van-gogh

VAN GOGH: O SUICIDADO PELA SOCIEDADE

Van Gogh não morreu num estado propriamente de delírio,

mas por ter sido corporalmente o campo de batalha de um problema em torno do qual o espírito iníquo desta humanidade se debate desde as origens.

O problema do predomínio da carne sobre o espírito, do corpo sobre a carne ou do espírito sobre ambos.

E nesse delírio, onde está o lugar do eu humano?

Van Gogh o buscou durante toda sua vida com uma singular energia e determinação,

e ele não se suicidou num acesso de loucura, de desespero por não conseguir encontrá-lo,

mas, pelo contrário, ele havia conseguido, tinha descoberto o que era e quem era quando a consciência coletiva da sociedade, para puni-lo por ter rompido as amarras,

o suicidou.

E aconteceu com Van Gogh como poderia ter acontecido com qualquer um de nós, por meio de uma bacanal, de uma missa, de uma absolvição ou qualquer outro rito de consagração, possessão, sucubação ou incubação.

Assim a sociedade inoculou-se no seu corpo, esta sociedade

absolvida,

consagrada,

santificada

e possuída,

apagou nele a consciência sobrenatural que acabara de adquirir e, como uma inundação de corvos negros nas fibras da sua árvore interna,

submergiu-o num último vagalhão

e, tomando seu lugar,

o matou.

Pois está na lógica anatômica do homem moderno nunca ter podido viver, nunca ter podido pensar em viver, a não ser como possuído.

Antonin Artaud

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31/12/2008 - Posted by | Uncategorized

3 Comentários »

  1. Agora que está terminando o ano quero dizer que o “boteco” foi um grande achado. Não conheço, pessoalmente, nenhum dos frequentadores, mas me sinto vizinho de todos. Para mim é quase uma viagem cotidianda que me faz sentir vivo e que me inspira a criar. Sinto que é um “lugar” que não é formatado e que cabe tudo e todos, por isso me sinto a vontade. Vou deixar mais um poema que é um diálogo com coisas que li no boteco.

    Tenho AIDS sim (Theobaldo Villela)

    Tenho AIDS sim,
    Mas não tente me fazer de vítima
    Como se eu fosse um coitado
    Aviltado, humilhado…
    Estou cansado,
    Mas não é o meu corpo que reclama
    É a alma que clama por paz
    Me deixem em paz
    Não quero mais uma mão estendida
    Que não seja amiga
    Quero curtir a vida
    A que me resta
    Mas que ainda é minha

    Tenho AIDS sim,
    Mas não pense que por isso sou inferior
    Sou apenas diferente
    Um jovem doente
    Mas que sente o sangue pulsar no coração
    Sou mais que esta carne
    Sou mais que este corpo
    Mas sou de carne e osso
    Sou feito de sonho e paixão

    Tenho AIDS sim,
    Mas não me acuse de nada que fiz
    Pois apesar de tudo fui feliz
    “Confesso que vivi”
    Vivi o que quis
    E agora por um triz
    Ainda sou feliz

    Tenho AIDS sim,
    Mas não olhe para mim como se eu fosse um culpado
    Estou além da cruz e do pecado
    Além do certo e do errado
    Vivo num sentido extra-moral
    E se quiserem, me considerem anormal
    Não faz mal
    Eu só quero a vida
    E esta não significa um espaço no tempo
    É o momento, o vento, a eternidade

    Tenho AIDS sim,
    Mas não sou nenhum idiota
    Sou alguém que aprende a conviver
    Com algo novo dentro de si
    Algo terrível,
    Pequeno mas forte
    Parente da morte
    Que está perto e distante
    É certa e inconstante
    E que não atende por hora marcada
    Dela só faço rir
    Enquanto puder, afastá-la de mim
    Mas não por medo
    Talvez por pensar que é o fim

    Tenho AIDS sim,
    Mas sou mais que isto
    Sou um mundo; para alguns, imundo
    Sou um início; para uns, um vício
    Sou um fim
    O que para alguns é ruim
    Eu simplesmente sou

    Comentário por Theo | 31/12/2008 | Responder

  2. Já ia esquecendo de dizer que esse texto do Artaud me fala profundamente, porque muitas vezes também me sinto suicidado pela sociedade. E esse quadro sombrio, tempestuoso, espiral é brilhante.

    Comentário por Theo | 31/12/2008 | Responder

  3. Oi Theo, tenho percebido que cada pessoa se aproveita do boteco de uma forma muito específica. Isso é ótimo. O boteco é mesmo um espaço que tem uma formatação flexível, leve, plural e que cabe sempre o que é de bom gosto. Sua poesia, seu grito, sua experiência, seu diálogo aqui presentes são de inteiro bom gosto. Abç.

    Comentário por marciosales | 03/01/2009 | Responder


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