No boteco

Vizinhança

Vizinhança é uma palavra que sugere muitas coisas; ou melhor, que faz pensar em muitas coisas curiosas. Remete-nos, por exemplo, ao lugar onde moramos. De um modo geral não escolhemos um lugar para morar. Nascemos ali e por ali ficamos. Criamos vínculos com a cidade, com o bairro, com a rua, com os vizinhos. Mas é possível que alguém decida mudar de endereço e, então, procura um novo lugar. As razões podem ser as mais variadas possíveis, mas isso não vem ao caso. O curioso é que em meio às infinitas razões que justificam uma mudança, uma coisa é certa: dificilmente se escolhe o vizinho que se quer ter. A pessoa pode até se mudar para escapar de um vizinho indesejável, mas não possui nenhuma garantia de que o próximo vizinho será agradável. Ou ainda que se preocupe com uma boa vizinhança, nada garante que ela será permanente. Enfim, estamos diante de uma caixa de surpresas. O fato é que são poucas as pessoas que na hora de mudar consideram primordial essa questão da vizinhança. Até porque se for um vizinho incômodo, os muros estão aí para nos separar.

Mas a vizinhança sugere ainda outra coisa. Os vizinhos que fazemos ao longo da vida a partir dos encontros que temos. As pessoas, os animais, as coisas que se tornam vizinhas e das quais não nos separamos mais. Vizinhos porque afinados, porque entrosados, porque próximos, mesmo que distantes. Esse tipo de vizinhança não se escolhe; simplesmente acontece. Quando nos damos conta são cinco, dez, vinte anos, uma vida inteira de proximidade e convivência. Não importa o que seja – pessoas, animais, objetos – queremos que esteja sempre por perto. Como se diz: rolou uma química e aí não tem jeito. Ainda que não se vejam todos os dias; ainda que não se encontrem sempre; ainda que não dividam o mesmo espaço, serão próximos; se estenderá a afinidade; permanecerá a vizinhança. É como se uma molécula se atraísse para os seus pares. Ou como se tudo isso fosse a extensão de si mesmo. Talvez seja isso. Nós não nos encerramos em nós mesmos. Nós somos apenas o começo de um ser em expansão; um ser em movimento que vai se compondo a partir dos encontros e de tudo que é capaz de agregar. Somos impelidos em direção ao outro. E com isso nosso vizinho é próximo porque distante; afinado porque dissonante; semelhante porque diferente.

Mas que bela vizinhança!

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28/12/2008 - Posted by | Uncategorized

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