No boteco

Ainda sobre a guerra

A guerra de que falo não é a guerra alimentada pela cobiça, pela inveja, pelo desejo de destruir o outro para ter o que lhe pertence. Essa é a guerra dos fracos, dos ressentidos que lutam por um território, daqueles que têm sede de poder.

A guerra de que trato é de outro tipo. É a guerra que resiste às formas de dominação, de autoritarismo, de controle. Ela busca a afirmação da diferença, a criação do novo, a expressão da liberdade. É guerra porque para se deslocar é preciso romper, rasgar, partir as velhas formas que enfraquecem a existência. Mas se ela demarca uma distância é devido à potência que lança para uma nova direção, para o que está em vias de se formar.

Aliás, em muitos casos, essa guerra nem sequer é contra o outro. Muitas vezes ela é contra nós mesmos. É preciso primeiro vencer as idéias calcificadas que nos prendem a um único ponto de vista ou a verdades já legitimadas por uma forma dominante.

A guerra é, pois, uma condição necessária para que as coisas não permaneçam sempre do jeito que estão e para que novas experiências afirmadoras da vida se tornem possíveis.

E, nesse caso, não há como separar pensamento, linguagem e ação – tudo vira um campo de batalha.

Anúncios

03/11/2008 - Posted by | Uncategorized

5 Comentários »

  1. …E o maior dos vencedores é aquele que venceu a SI mesmo… – Chega de Guerras!?!

    Comentário por C.martins | 04/11/2008 | Responder

  2. Você falando de guerra me lembrei da importância de movimentos como o do Zumbi de Palmares e do Cangaço de Lampião. E me lembrei também de uma mésica da Nação Zumbi que diz que “desorganizando posso me oreganizar”.

    Comentário por Ney Mattos | 07/11/2008 | Responder

  3. Boas lembranças Ney… Agora, oreganizar seria se encher de orégano? É só pra descontrair, Ney. Os comentários dos botequeiros são sempre bem vindos e valiosos. Valeu mesmo!

    Comentário por marciosales | 07/11/2008 | Responder

  4. É, realmente não dá para se pensar na sociedade, tendo em vista a forma estratificada como esta se encontra, como algo que foi solidificado harmonicamente. Principalmente porque a sociedade é ‘produto’ do homem. E este, enquanto ser histórico, é quem delineia os ditames de sua cultura, é ele quem a cria e, conseqüentemente, vê as possibilidades e, se há, necessidade de mudanças.
    O homem foi responsável, por assim dizer, por criar um conjunto de esquemas fundamentais que servem de base comum à todos, e é por meio da cultura que ele passa para as gerações mais novas valores e idéias a fim de orientar a ação destas em prol de uma determinada prática. Mas ocorre que se a sociedade está disposta desta forma hoje, não significa que tal resultado seja o produto de consensos generalizados, desprovidos de conflitos, mas o resultado de desavenças ideológicas que acabaram resultando em ‘rebeliões’ organizativas de grupos que se opunham à ‘ordem’ estabelecida. Isto porque, a camada dominate, estabelece padrões de comportamento a fim de ‘domesticar’ os grupos, para que eles aceitem aquilo que é passado como verdade. E muitas são as instituições que verificam se as normas estão sendo cumpridas, compreendidas como a superestrutura da sociedade.
    Impor “valores vindos de outras vontades”, significa tolher do outro a liberdade de pensamento e o direito de escolha, uma vez que é aquilo ou aquilo. É preciso lutar por este direito.
    Acredito que os conflitos existentes em nossa sociedade se dão, principalmente, pela ação das relações de poder, que são determinantes. E, se as coisas conseguem mudar as idéias, a vontade de poder é algo danoso. E só nós mesmos temos as armas para lutar contra este mal. Contra a influência de um mundo que nos impulsiona para o consumo e o domínio. Penso que pior do que pensar que estamos em guerra, e que é preciso parar, porque ela tem que ter fim, é pensar que estamos aceitando tudo que nos é mostrado e dito como verdade, com consentimento. Como já nos diz a música: ‘paz sem voz, paz sem voz não é paz é medo’.
    E “eu tenho minhas idéias não posso ficar calada… uma luta sem armas de fogo, violência não vai adiantar, cada cérebro é um Q.G… tá na hora de acordar!”

    Abraços!

    Comentário por Marcele Cypriano | 22/12/2008 | Responder

  5. Oi Marcele, suas palavras vão de encontro ao desconforto que muitos sentem diante de determinados aspectos da cultura. De um modo geral a cultura é muito mais reacionária que revolucionária, muito mais conservadora que transformadora. O Estado Moderno, por exemplo, tem o dom de petrificar a existência das pessoas tornando-as mais impotentes, dependentes, decadentes e sem dentes (essa última foi só pra rimar). Abçs

    Comentário por marciosales | 03/01/2009 | Responder


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: