No boteco

Tragédia na baixada

Era 7 de setembro, Dia da Independência. Mas bem que podia ser mais um domingo como outro dia qualquer. Na estrada quase deserta surge um farol vindo de um lado – era uma moto. Da outra direção outro brilho luminoso e veloz – era um carro. De repente, o carro, a moto, o choque e um corpo arremessado pra longe enquanto sua perna se perdia em outro canto da rua. O carro partiu sem deixar vestígio. E o drama estava instalado. Uma moradora que correu para a rua assustada com o barulho não tardou em pedir ajuda. Polícia, Bombeiros, SAMU. 190, 192, 193. Chama, chama e ninguém atende. Após 10 minutos a central de atendimento do SAMU recebe a chamada… Mas o que são 10 minutos? Para uma vida agonizando no chão, uma eternidade. A moradora descreve: “O rapaz estava vivo, ali estendido no chão, um dos carros que passava pela rua parou e era uma paramédica, que ficou falando com o acidentado aguardando o socorro que não vinha”. Depois de 25 minutos, finalmente chega o carro dos Bombeiros. Mas não era uma ambulância. Até esta chegar passou-se mais 5 minutos. 30 minutos de espera, mas já era tarde demais. A vítima não resistiu. Não pense que a novela terminou. Três horas depois, já de madrugada, o corpo permanece estendido no chão, velado apenas pela PM e pelos familiares da vítima. O sangue e as lágrimas se misturam com uma fina chuva que tenta lavar a cidade.

Essa história não é mais uma crônica sobre uma tragédia na baixada fluminense. Ela de fato ocorreu. Mais um anônimo é vítima do caos dos serviços públicos. Como um órgão que se denomina Serviço de Atendimento Móvel de Urgência demora 30 minutos para fazer um atendimento no centro de uma cidade como Nova Iguaçu, após 15 insistentes ligações? A moradora da rua que acompanhou todo o drama, Karla Oldane, resolveu manifestar a sua indignação e encaminhou um e-mail, narrando o acontecido, para vários veículos de comunicação. Na mensagem ela diz: “Se logo que liguei, a ambulância do SAMU estivesse no local, talvez não ocorresse o óbito. O rapaz ficou vivo aproximadamente 20 minutos depois do acidente. Tempo suficiente para que qualquer carro chegasse a esta rua no centro de Nova Iguaçu. Acredito nos meios de comunicação e deixo manifestada a minha revolta. Não temos condições dignas para viver e nem mesmo para morrer. Lá vêm novas eleições e utopicamente aguardo mais atenção para os serviços de Urgência, pois acreditava na eficácia deste serviço”. No boteco estende este manifesto em torno de um episódio que, infelizmente, não é um caso isolado. Conforme as diversas respostas ao e-mail de Karla, isto ocorre com várias pessoas em vários municípios do Rio e em outras partes do Brasil.

Celebramos a independência contemplando a nossa falência.

Como parte deste manifesto, Karla Oldane compôs o poema Um quase nada que você confere na seção poemas nômades.

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17/09/2008 - Posted by | Uncategorized

1 Comentário »

  1. Bom dia,
    primeiro quero dar os parabéns pelo excelente blog. Agora me deixa contar uma historinha envolvendo o “Serviço de Atendimento Móvel de Urgência”: no dia 03/fevereiro/2005, às 11:00 da noite, meu pai sofreu um infarto. Na agonia que acontece nessas horas, alguém ligou para o SAMU, visto ser um atendimento de urgência e pelo fato do meu pai estar desacordado o que dificultava transportá-lo para o carro e levá-lo ao hospital mais próximo. Bom, para encurtar a história, o SAMU chegou….ahnnnn…deixa-me ver…. 40 minutos depois, e como dá pra imaginar não teve mais jeito a não ser chorar. A “imbecil” da médica do samu ainda ficou fazendo massagem cardíaca manual pois não tinham desfibrilador. Pior, ela passou uns 40 minutos realizando esse procedimento até que foi preciso eu chegar e dizer para ela parar pois não adiantava mais nada. Nem sei porque não a chamei de idiota e burra. Talvez porque a culpa real disso tudo seja do próprio Estado que coloca incompetentes para realizar serviços médicos.
    Infelizmente este é o serviço público que temos. Eleições chegam e vão, políticos entram, enriquecem e vão, outros insistem em continuar e o povo, como diria um personagem antigo do chico anísio: “QUE SE EXPLODA”.
    Hoje em dia, quando vejo passar algum carro do SAMU com aquela sirene ligada logo digo a quem estápor perto: “Lá vai o samu recolher mais um corpo”.
    Para terminar e lembrando os velhos e tenebrosos tempos da ditadura militar deixo uma frase que quando eu era criança, lá pelos anos 70, ouvia muito: “Eu te amo meu brasil, eu te amo! meu coração é verde, amarelo e branco…blah, blah, blah!!!

    Comentário por luciano faria | 23/10/2008 | Responder


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