No boteco

O amor e a dívida infinita

Em torno de um aforismo de Nietzsche em Humano, demasiado humano e do comentário de Jasmim (ver seção Filosofia).

Nietzsche é angustiante, perturbador e intempestivo. Mas como ficar indiferente aos seus aforismos bombásticos? Simplesmente não dá. Ele desconstrói nossos valores mais caros, mais estimados. O amor, por exemplo. Quem se levantará contra ele esboçando qualquer tentativa de uma desconfiguração? Pois é, Nietzsche o fez. Mas não a troco de nada. É contra um sentimento que, de tão comum, se tornou banal que ele atira seu veneno mais mordaz. É contra o disfarce de um afeto que, a despeito da sua crueldade, se faz passar por louvável que ele acende o seu pavio.

Nada é mais cruel que o amor. Imagina!

Você é indiferente a uma pessoa, ou mesmo não gosta dela, ou ainda a feriu e, mesmo assim, ela descarrega sobre você o seu mais doce amor. Uma vez atingida na face, oferece a outra; tendo que caminhar uma milha, segue duas; devendo perdoar, pede perdão. Segundo as escrituras, com isso, se estará construindo ninho na cabeça do outro; roubando-lhe o sono, tirando-lhe o sossego, perturbando-lhe a alma. Que coisa cruel. Você fica remoendo aquilo sem cessar como uma espécie de tortura à conta-gota.

Preferível é a justiça que paga com a mesma moeda. Acertou as contas, fim de papo; conversa encerrada; não se fala mais nisso.

Agora o amor não. Ele não deixa esquecer. Ele quer manter viva a lembrança do seu sacrifício: eu dei o melhor de mim; eu larguei tudo por você; eu até morri por você; enfim, eu te amei sobremaneira.

Se a justiça é um acerto de contas definitivo, o amor aplica uma dívida infinita.

A lógica do amor é a doação: você não merece, mas eu te dou assim mesmo; você não pediu, mas eu te ofereço; você exigiu, eu faço em dobro. Uma vez aceito o amor, o sentimento que se tem é o de uma dívida permanente. Jamais poderei pagar o amor que você me dedicou tão intensamente.

Enquanto a justiça goza da grandeza da amnésia, o amor sofre da pequenez da lembrança.

Anúncios

01/07/2008 - Posted by | Uncategorized

5 Comentários »

  1. Caro Filósofo, você me deixou sem palavras,quase sem fôlego, que descrição mais linda! você é muito bom com as palavras. O amor é tudo isso e muito mais, por isso ele é tão forte e tão… sei lá, talvez muito mais perturbador que Nietzsche.
    Parabéns!

    Comentário por Jasmim | 02/07/2008 | Responder

  2. Obrigado Jasmim. Talvez o artifício das palavras, mais que mostrar o que já se sabe, seja um meio de revelar o que ainda não se sabe. Por isso a gente vai brincando com elas. E que bom que você topou participar desta brincadeira!!!

    Comentário por marciosales | 02/07/2008 | Responder

  3. A inteligência sem amor, te faz perverso
    A justiça sem amor, te faz implacável
    A diplomacia sem amor, te faz hipócrita
    O êxito sem amor, te faz arrogante
    A riqueza sem amor, te faz avaro
    A docilidade sem amor te faz servil
    A pobreza sem amor, te faz orgulhoso
    A beleza sem amor, te faz ridículo
    A autoridade sem amor, te faz tirano
    O trabalho sem amor, te faz escravo
    A simplicidade sem amor, te deprecia
    A oração sem amor, te faz introvertido
    A lei sem amor, te escraviza
    A política sem amor, te deixa egoísta
    A fé sem amor te deixa fanático
    A cruz sem amor se converte em tortura
    A vida sem amor…não tem sentido

    Pense nisso com AMOR! pois o amor triunfa sobre a justiça! já ouviu falar nisso? pois, quem não tiver pecado atire a primeira pedra… Bjs.

    Comentário por Jasmim | 02/07/2008 | Responder

  4. E por detrás do amor, há sempre um quê de loucura…

    ‘Contam que uma vez se reuniram todos os sentimentos e qualidades dos homens em algum lugar da terra.
    Quando o ABORRECIMENTO já havia reclamado pela terceira vez, a LOUCURA, como sempre tão louca, lhe propôs:
    – Vamos brincar de esconde-esconde?
    A INTRIGA levantou a sombrancelha intrigada e a CURIOSIDADE sem poder conter-se perguntou:
    -Esconde-esconde? Como é isso?
    -É um jogo, explicou a LOUCURA,- em que eu fecho meus olhos, conto até um milhão, enquanto vocês se escondem; quando eu terminar de contar começo a procurá-los, e o primeiro que eu encontrar ocupa meu lugar no jogo.
    O ENTUSIASMO dançou, seguido pela EUFORIA. A ALEGRIA deu tantos saltos que acabou convencendo a DÚVIDA e até a APATIA, que nunca se interessavam por nada.
    Mas nem todos participaram; a VERDADE preferiu não se esconder.
    -Para quê se no final todos me descobrem? – Pensou a VERDADE.
    A SOBERBA opinou que era um jogo muito tolo (no fundo o que a incomodava era que a idéia não tinha sido dela) e a COVARDIA preferiu não se arriscar.
    -Um, dois, três… Começou a contar a LOUCURA.
    A primeira a se esconder foi a PRESSA que, como sempre, caiu atrás da primeira pedra do caminho.
    A FÉ subiu ao céu e a INVEJA se escondeu atrás da sombra do TRIUNFO, que com seu próprio esforço tinha conseguido subir na copa da mais alta árvore.
    A GENEROSIDADE quase não conseguiu se esconder, pois cada local que achava lhe parecia maravilhoso para algum de seus amigos, ao contrário do EGOÍSMO, que encontrou um ótimo lugar só para ele.
    A MENTIRA se escondeu no fundo do oceano (Mentira! Foi atrás do arco-íris).
    O ESQUECIMENTO, não me recordo onde se escondeu…
    Quando a LOUCURA estava lápelo 999.999, o AMOR ainda não havia achado lugar para se esconder, pois todos estavam ocupados. Até que encontrou um roseiral e decidiu ocultar-se entre as rosas.
    -Um milhão!, terminou de contar a LOUCURA e começou a busca. A primeira a aparecer foi a PRESSA, apenas a três passos de uma pedra. Depois escutou a FÉ discutindo com DEUS sobre zoologia.
    Em um descuido encontrou a INVEJA e, claro, pôde deduzir onde estava o TRIUNFO.
    O EGOÍSMO não precisou ser procurado, saiu correndo de seu esconderijo, que era um ninho de vespas.
    A DÚVIDA foi mais fácil ainda, encontrou-a sentada em uma cerca sem se decidir de que lado se esconder.
    E assim foi encontrando a todos: o TALENTO, nas eras frescas; a ANGÚSTIA, em uma cova escura… Apenas o AMOR não aparecia. Quando a LOUCURA estava dando-se como vencida, encontrou um roseiral, pegou um forquilha e começou a mover os ramos. No mesmo instante ouviu-se um doloroso grito. Os espinhos tinham ferido o AMOR nos olhos.
    A LOUCURA não sabia o que fazer para desculpar-se; chorou, rezou, implorou e até prometeu ser seu guia.
    Desde então o AMOR é cego e a LOUCURA sempre o acompanha.’

    Comentário por Marcele | 28/07/2008 | Responder

  5. Oi Marcele! Já que é assim, brindemos à loucura!!!

    Comentário por marciosales | 30/07/2008 | Responder


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: