No boteco

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Poemas nômades

Este espaço é reservado para a livre expressão poética…

Ensaio (m sales)

Pronto.
Isto se pode dizer
da comida que chegou ao ponto.
Está pronto,
posto à mesa.
Isto se pode dizer
da mulher que se arrumou pra sair.
Horas e horas,
até que enfim…
está pronta.
Que beleza!
Isto se pode dizer
do trabalho que já terminou.
Muita atenção e cuidado,
mas agora acabou.
Missão cumprida!
Com certeza.
Mas isto não serve pra vida,
não serve pra gente.
A vida é um eterno cozer,
um infinito arrumar-se,
um cuidado constante.
Não se termina.
Não se completa.
Nem se satura.
Um ensaio sem fim.

Ser (Lúcia Helena O.)

Como alcoólatra
Bebo o dia para não secar a lucidez da alma
Como livre
Corro pistas para não ver o tempo parar
Como poeta
Escrevo para não embriagar meu coração.

1976   (Lúcia Helena O.)
Tango
Bolero
Vassoura
Valsa
Chinelo
Saudade idade
Vontade do  abraço
Com laço na alma
Sorriso com brilho
A luta no peito
A força o respeito
Emana na casa
Que  ouve seus passos
Sente seus laços
Vê sua luz
Traduz-se no hoje
Desejo do ontem
Liberdade trilhada
Enfim alcançada
Agora o seu dia
Com nome exposto
Com foto
Com rosto
Com voz
Gargalhada
É dia é hora
Do Silvio querido
De eterno a amigo
Estar entre nós
Falar para gente
Que vive contente
Nos ouve nos sente
Não tem mais correntes
Não tem corre- corre
Nem fuga na noite
Tabernas
Pernoites
Porretes
Açoites
É luz
É estrela
Que toque o piano
Que eu ouça tua voz.
 
Na paz  (Lucia Helena O.)
Busquei no teu corpo
a paz que procurava para o meu.
Senti na tua pele o perfume
que invadia o vazio de  noites infintas.
Achei na tua boca
 o gosto da fruta roubada
dos tempos de menina.
Percebi que na tua mão
a leitura dos meus códigos
mais secretos
foram se revelando  
e deixando na transparência progressiva
do desejo,
  brotar a concretude do  prazer
no corpo que se deixa lido, 
 e decodificado pelo homem
 que me olha,
me deseja e
silenciosamente me possui.
Batidas do coração!
Corpo de corda bamba
sem rede de proteção que o segure  
no infinito salto do prazer. 

Vizinhança (m sales)

Aconteceu…
Nada programado
Nada previsto
Nada combinado
Simplesmente surgiu
E gerou uma paixão
Se não fosse aquele olhar
Aquelas palavras
Aquele aceno
Aquele ruído
Ou mesmo o silêncio
Nada teria acontecido
Mas aconteceu
E agora estou submerso
Nesta vizinhança

Sem juízo (m sales)

Hoje eu acordei
Sem vontade de pensar
Não queria ter idéia alguma
Nenhuma razão
Nenhum por quê
Só encostar
E ali ficar
Largado
Só olhando
Observando
Participando
Sentindo o gosto
Sem saber do que é feito
Sem juízo de valor
Sem qualquer juízo

Casa de Bamba (m sales)

Carioca de vocação
Homem de todas as notas torcidas
Incrível poeta de tantas canções
Catador de palavras soltas na vida
Ontem e hoje: encantação
Bate o batuque na beira do peito
Urge a estrela que precisa brilhar
Arde no canto da pele a nota
Raios de acordes acordam no ar
Quando as palavras deslizam na música
Umas e outras começam a dançar
Ele tudo observa e faz acontecer

mentira (m sales)

eu não minto
essa é minha
maior mentira
minhas certezas
são várias
meus universos
são ocos
meus amigos
são poucos
minhas idéias
são raras
minhas faces
são caras
meus caminhos
tão fartos
nos meus sonhos
me acho
nas calçadas
me perco
quando subo
eu desço
quando caio
esqueço
uma vez chegando ao fim
eu retorno ao começo

ritornelo (m sales)

a chuva cai
as nuvens andam
os carros correm
cada qual no seu tempo
e eu aqui
miro a paisagem
indiferente a tudo
mergulhado num tempo
que é só meu
ah! o tempo
enquanto tudo acontece
lá fora
eu esqueço
e me perco no olhar
que não tem fim

Cartão de Aniversário (Jose Mauro Fernandes)

Depois de tantas voltas em torno do sol
nem parece que você viajou tanto
Parabéns!
Éramos tolos e geniais,
caminhávamos em gelo fino.
E todos nós éramos frágeis
e vivemos, juntos,
algumas inseguranças,
crises existenciais
aprendizados empíricos.
E nos fizemos adultos
e partimos para outras estradas.

compartilhamos choros e alegrias
e os aniversários eram bem comemorados!
Tu completas mais uma volta em torno do sol
e sinto-me feliz por tua viagem!

Mundos possíveis (m sales)

Entrei
E eis que era um labirinto
Minto
Era um misto de camadas
Interligadas por escadas
Cheias de ziguezague
Uma voz me disse:
Vague
E então vaguei
Outra voz me disse:
Escolhe
E então parei
Diante de tantas gavetas
Hesitei
Não sei ao certo
Qual devo abrir
Não há o certo
Me disseram
Só há o possível
Cada gaveta é um mundo
Que se abre
E no fundo
Tudo cabe
Pois uma gaveta
Nada mais é
Que uma passagem
Para tantas outras

SOLIDÃO (Bruno Alves)

ELA NÃO ME INVADE
NÃO CHEGA SEM PEDIR LICENÇA
EU QUE A CONVIDO
PARA PARTICIPAR DA MINHA INTIMIDADE
ELA SUGERE REFLEXÃO
REESTRUTURAÇÃO
ME PEDE CAUTELA
POR QUE TEMER A SOLIDÃO?
VOU TE CONTAR UM SEGREDO
A SOLIDÃO NÃO EXISTE
TÃO POUCO É FRUTO DA IMAGINAÇÃO
APENAS VOCÊ DISFARÇADO
PARA SE OPOR A MULTIDÃO
NÓS NÃO FICAMOS SOZINHOS
E SIM,
COM A GENTE MESMO
REFLEXO NO ESPELHO
A SOLIDÃO É UMA FARSA DO SUJEITO
QUE PREFERE ENGANAR-SE
A ADMITIR QUÃO CHATO ELE É
EU VIVO SOLIDÃO
RESPIRO SOLIDÃO
EU SOU SOLIDÃO
MAS AS VEZES PREFIRO CRER QUE NÃO

“Poesia crua” (Jose Mauro Fernades)

Asso carnes
e frito batatas
Mas me alimento
mesmo
É da poesia crua!

Do amor (subjetivo) (Zémauro Fernandes/Marcos Moreno)

Já falou-se tanto do amor

E haverá muito o que falar

Pois o amor é um poço

Inesgotável

Impossível de secar

Do amor não se tem medo

Vai-se ao fundo

E bem sério

Desvendar todo segredo

Mesmo sem poder expressar

Todo Mistério

Mal de amor

Não tem remédio

Ele próprio é a poção

Outro amor lhe tira o tédio

E também da solidão

E amar é como

Navegar em alto mar

Sentir presságios de perigo

Sobreviver de um naufrágio

E se achar forte

Mesmo sendo frágil

saciedade (m sales)

era insaciável
queria sempre mais
quanto mais tinha
mais queria
não bastava um
nunca era o bastante
nunca tinha o bastante
sempre lhe faltava
uma parte
e dizia que era a melhor
o melhor estava por vir
e assim buscava
procurava em cada canto
em cada quadro
em cada janela
em cada horizonte
em cada estante
escada para o infinito
desejo incontido
até a morte

Empresa (m sales)

A empresa
Consiste
Em tornar-te
Uma presa
Saciada
E feliz
Que não sabe
Que é triste
E não pensa
O que diz
Te lança na rede
Entre quatro paredes
Afoga tua sede
Em doces ardis

Leve (m sales)

leve…
muito leve
chega flutuar
como pena
perdida no ar
seu prazer
são as piruetas
desenhadas
no céu
ao léo
ao sabor do vento
ao palpar das nuvens
ao cantar dos pássaros
livres
leve
me leve
contigo
nas suas asas
pelas suas casas
erguidas
em cada esquina
e deixadas
pra trás
no olhar
perdido
da menina

arcos (m sales)

desceu a ladeira da lapa
cheia de graça
e malemolência
zombando daquele que passa
que enfim acha graça
da sua inocência
sempre desinibida
ousada atrevida
um espinho uma flor
uma rosa erguida
transbordante de vida
cheia de amor

entre os arcos da lapa
faz pose disfarça
toda indecência
pede um favor a quem passa
mas logo trapaça
e pede licença
segue sorrateira
sem eira nem beira
sem qualquer pudor
essa força bandida
solta na vida
presa ao amor

Farsa (m sales)

não me vale nada
essa seda rasgada
que de tanto enfeitada
parece um pavão
não preciso dela
não conto com ela
dela não me cubro
dela abro mão
pra que tanto elogio
tudo por um fio
acende-se o pavio
logo cai no chão
não me enche os olhos
não me estufa o peito
não me eleva a alma
essa bajulação
eu não quero mimo
nenhum puxa saco
alguém me seguindo
isso eu não quero não
chega de afago
e falsas carícias
não suporto mais
a sua adulação
dói nos meus ouvidos
seu louvor fingido
todo esse alarido
em minha intenção
tem o meu desprezo
essa tal lisonja
sempre me protejo
da sua ilusão

Baudelaireando (m sales)

O pai, o velho
O filho, o novo
O espírito que a mistura traz
É o sopro de um renovo
Consciência do pai
Juventude do filho
Loucura necessária de cada dia
Espírito que emana do vinho

amor-beleza (m sales)

não quero um amor profundo
que rasgue o mundo
e crie raiz
um tipo de amor platônico
de deixar atônito
de fazer feliz
um amor muito sério
sem qualquer mistério
tudo previsível
amor regulado
muito decifrado
e perceptível
um amor tachado
tipo censurado
cheio de pudor
amor enfeitado
sem qualquer pecado
sem qualquer sabor
quero um amor feitiço
que sem compromisso
é amor sorrateiro
falo do amor bandido
que acerta o tiro
mas cura com o beijo
esse amor safado
que mesmo calado
faz hum!!! suspirar
que não dá aviso
e quando é preciso
faz até chorar
amor vagabundo
sujo e imundo
cheira a poesia
um amor moleque
à noite aparece
e some de dia
o amor que me interessa
é o que não faz promessa
nem jura eternidade
amor de veneta
ainda faz careta
pra qualquer verdade
amor repentino
que feito menino
chega de surpresa
superficial
além do bem e do mal
amor-beleza

canto (m sales)

quem sou eu neste canto
não estou em canto nenhum
não me faço entender
não me faço presente
ausente em qualquer situação
na poesia
estou apenas de passagem
ela é o oco
que nada tem pra representar
figura distorcida
mensagem abolida
imagem decaída
pura sensação
sem pretensão

buraco (m sales)

uma fresta
para o sol entrar
uma fissura
para o ar sair
um ralo
para a água vazar
um grito
para o corpo fugir

chão (m sales)

certas canções
carregam consigo
o canto caído
contido de chão
canto calado
de um coração carcomido
cansado consumido
cheio de confusão
corpo coletivo
tal como um cesto
onde cabe a comida
o cobre a cobrança
coisas de criança
cabelos coloridos
cordas cortadas
cérebros colididos
cachos coroados
contos corroídos
crenças caçadas
cortes corridos
um caso companheiro
uma cama na casa
um chinelo um canteiro
e no copo a cachaça
no céu
a camada de chuva
que cai
cobrindo
a calçada

roubo (m sales)

um momento me basta
se afasta
e me deixa
de qualquer maneira
besteira…
essa coisa
de ter que julgar
deixa pra lá
os métodos, as regras
e todas as receitas
aceitas
por quem quer
enfim regular
um sopro
uma idéia
muita preparação
uma associação
dos piores perigos
um flerte
um encontro
“entre-dois” na solidão
e o roubo
que deixa
os olhares cativos

Verso (m sales)

Às vezes tenho um verso
E então começo
Deixo me levar
Ele me conduz
Ao passo que seduz
Para algum lugar
Que não sei ao certo
Se distante ou perto
Onde vou chegar
Simplesmente sigo
Tendo o verso amigo
Para me guiar

Indo (m sales)

Intuindo
Intuindo
Intuindo
Tô indo
Pra algum lugar
Fluindo
Qual onda do mar

Recorte (m sales)

Da janela vejo aquilo que quero
E recorto do jeito que eu gosto
Apanho com um simples gesto
A imagem de cada rosto

O INDISCRETO (FDC)

Você viu como o sol é indiscreto?
ele invadiu o nosso quarto logo ao alvorecer
clareou tudo..
iluminou nossos olhos,
pensou que de amor estavamos fartos,
varou na vidraça para do leito nos erguer.
E é por isso, que eu amo a lua,
simples,
amorosa,
discreta.
Enche de penumbra a terra e nos observa bem quieta.
é bem discreta a luz dela.
Sem forte clarão,
sem fulgor.
Enquanto o sol nos convida a trabalhar..
a lua
ela, nos convida para o amor.
 

NA ESPERA (FDC)

Na imensidão desse lugar
saio a te procurar
talvez,
você não venha
talvez,
eu não possa te achar
mas,lá
lá eu vou ficar
a te esperar…
 

Vazio (m.s.)

Vaguei pra dentro de mim mesmo
Mas a casa estava vazia
Em vão procurei
Então desisti
Eu me perdia de mim
Eu não estava mais ali
Não havia ninguém
Mas eu via todo mundo
Por um segundo pensei
Que estava louco
Mas aos poucos
Percebi que não
E vaguei tranqüilo
No silêncio escuro
Do meu corpo vazio

Acontecimento (m.s.)

Dois corpos se encontram
Se tocam
Se sentem
E tão de repente
Não são mais os mesmos
Algo se acrescenta
Se inventa
Se cria
E logo se anuncia
Uma maneira de ser
Que agora se deixa
Se queixa
Se esvai
Como alguém que se trai
E se perde a si mesmo
Mas se recompõe
Se põe
Se abre
Uma vez que tudo cabe
Se não tem lugar nenhum

Viajante (m.s.)

O viajante sai
O viajante vai
Vaga por aí
Mundo a fora
Construindo seu próprio mundo
Ora fica
Ora vai embora
É um fora da lei
Fora de si
Fora do lugar
Sempre estrangeiro
Andarilho
Vagar devagar
O melhor está por vir
Então vai
Quando algo lhe atrai
Permanece
Quando lhe trai…
Anoitece
E parte
Vagabundo, vadio
Em parte
Pois deixa pra trás o pavio
Que alimenta a lembrança
Que acende a saudade
Mas logo esquece
Trata de esquecer
Pra poder se fazer
Se refazer
Com todos os riscos
Que uma vida imprevisível
Pode trazer
Viajante errante
Sua liberdade incomoda
Seu talento para o movimento
Apavora
Sua transgressão dos limites
Desespera
Mas ele não está aí
Só não pode fugir
Da sua vida cigana

Dylan (m.s.)

Inquieto moleque arteiro
Preciso como um arqueiro
Verdade de corpo inteiro
Imerso num ar sobranceiro
De olhar arguto
Robusto
Solta no susto
Um suspiro infernal
Mas afinal
É leve
Como uma pedra que rola

Anônimo (m.s.)

Fugiu
Feito bicho do mato
Em busca do anonimato
De fato
Quer desaparecer
Sumir aos poucos
Se esconder
Pra não ter que ouvir:
Olha quem vem lá!
Pra não ter que dizer
Um sequer olá

Infinitivo (m sales)

Nascer…
Crescer…
Criar…
Morrer…
Ciclo infinito
Infinitivamente
Mais bonito

Tenho AIDS sim (Theobaldo Villela)

Tenho AIDS sim,
Mas não tente me fazer de vítima
Como se eu fosse um coitado
Aviltado, humilhado…
Estou cansado,
Mas não é o meu corpo que reclama
É a alma que clama por paz
Me deixem em paz
Não quero mais uma mão estendida
Que não seja amiga
Quero curtir a vida
A que me resta
Mas que ainda é minha

Tenho AIDS sim,
Mas não pense que por isso sou inferior
Sou apenas diferente
Um jovem doente
Mas que sente o sangue pulsar no coração
Sou mais que esta carne
Sou mais que este corpo
Mas sou de carne e osso
Sou feito de sonho e paixão

Tenho AIDS sim,
Mas não me acuse de nada que fiz
Pois apesar de tudo fui feliz
“Confesso que vivi”
Vivi o que quis
E agora por um triz
Ainda sou feliz

Tenho AIDS sim,
Mas não olhe para mim como se eu fosse um culpado
Estou além da cruz e do pecado
Além do certo e do errado
Vivo num sentido extra-moral
E se quiserem, me considerem anormal
Não faz mal
Eu só quero a vida
E esta não significa um espaço no tempo
É o momento, o vento, a eternidade

Tenho AIDS sim,
Mas não sou nenhum idiota
Sou alguém que aprende a conviver
Com algo novo dentro de si
Algo terrível,
Pequeno mas forte
Parente da morte
Que está perto e distante
É certa e inconstante
E que não atende por hora marcada
Dela só faço rir
Enquanto puder, afastá-la de mim
Mas não por medo
Talvez por pensar que é o fim

Tenho AIDS sim,
Mas sou mais que isto
Sou um mundo; para alguns, imundo
Sou um início; para uns, um vício
Sou um fim
O que para alguns é ruim
Eu simplesmente sou

Onda (m sales)

A onda do mar
Leva e traz
Sagaz
Ela não diz
Pra onde
Ela não diz
Quando
Não diz
Para quê
Nem por quê
Ela não tem
Explicação
Ela simplesmente
Faz

Vizinhança (m sales)

Aconteceu…
Nada programado
Nada previsto
Nada combinado
Simplesmente surgiu
E gerou uma paixão
Se não fosse aquele olhar
Aquelas palavras
Aquele aceno
Aquele ruído
Ou mesmo o silêncio
Nada teria acontecido
Mas aconteceu
E agora estou submerso
Nesta vizinhança

E…é. (m sales)

É.
Necessidade de ser
De solidificar
De marcar território
Enraizar
Estabelecer fronteiras
Delimitar
Apontar o dedo
Identificar
Dizer sem segredos
Argumentar
Dissipar as trevas
Iluminar
Levantar o muro
Classificar

E…
Sempre infinito
Só quer relação
Se tocar no outro
Aproximação
Flerte incestuoso
Entrelaçar a mão
Troca de saliva
Enamoração
Caminhar alado
Imaginação
Sem qualquer verdade
Mera sugestão
Só intensidade
Intersecção
Barco à deriva
Sem direção

Conflagração (m sales)

Não há silêncio que cabe
O grito contido no peito
Não há força que esmague
O ímpeto de um ar rarefeito
O céu é rasgado pela constelação
O chão varrido pelo mar
O fogo consome a matéria
O que há?
Conflagração

(m sales)

De costas pro mundo
Me vejo melhor
Me sinto mais vivo
Menos parecido
Com o que há por aí
Pois o que está aí
É um imenso rebanho
Com vendas nos olhos
E nada nas mãos

No silêncio (M. Sales)

Momento intenso de dúvida
Parece que a vida
Escapole entre os dedos
Cheia de segredos
Mistérios
Etéreos
Um grito preso na garganta
Alguma coisa que espanta
E agita os nervos
Pesadelos eternos
Tristonhos
Medonhos
Move-se solto um olhar perdido
Por demais ferido
Que aos poucos chora
Agonizado
Cansado
Inerte deseja o vazio
Ainda que sombrio
Faz-se companheiro
Desse afeto estrangeiro
Tangível
Indescritível
Inquieto

“Intervalos” (José Mauro Fernandes)

Nascer é óbvio
Morrer inevitável

Nesse intervalo
Prevalece
Nossa opção

Existir
É a alegria ou tristeza
de viver isto

“BUSCA” (José Mauro Fernandes)

Quero o sabor do sorriso
Na boca da poesia

Buscá-la vou
No espaço albino
De qualquer caderno
Na solidão do vão
Da folha única
E na coleção de saudades
Em branco e preto

Na memória desbotada
Da infância
E nas perdas e danos
Que brotam desta distância

Necessário é obtê-la
Dos anjos, dos diabos
E outros artifícios
Dos álcools, dos cigarros
E nas dores de outros vícios

Nunca esperá-la
Fosse ela só
Só inspiração

Porque ela existe
E está
Na febre que acomete-me
As noites em claro
Enquanto domo
A selvagem beleza
Das palavras em sono

Um olhar… (Theobaldo Villela)

Algo Indefinido Demarcou o seu Sítio
Alojou-se Incerto Decidido a Surdir
Absoluto Impôs-se Descendo no Sangue
Armando Infame um Destino a Seguir

Algoz Implacável que Destrói a Seiva
Anjo Infernal que Devora o São
Absinto Ímpio de Decisão Sobranceira
Abismo Impetuoso que Deita Solidão

Apaga a Ilusão de Dias Solares
Aurora Ignora e Deixa Sumir
Arranca Impávido o Deflagrado Sopro
Antes que Intentem do Domínio Sair

Assim no Íntimo Dói a Sentença
Aquela Impressão do Derradeiro Sinal
Antecipa-se o Instante da Despedida Solene
Acaba a Impulsão do Dom Seminal

Agora Infausto Disposto a Sofrer
Atado Inerte em Dosagens Sem-fim
Assim como a Ilha que Descobre-se Solta
Ando Indigente Dizendo Sim

Algo Insurja Desviando esta Sina
Arruinando o Império Deste Sentimento
Abra o Inferno e me Deixe Sair
Alivie a Intensa Dor do Sofrimento

Desejos (C. Martins)

Um novo dia
Anuncia-se:
Temor
Apreensão
Calor
Caminha à tarde
Um sabor à parte
Por todo o corpo
Tremor
Avizinha-se a noite
Não mais dor
Pro leito amigo
Agora vou contigo.

Saideira (M. Sales)

Foi uma daquelas
A cabeça girava
O dedo pedia
A cerveja suada
Gelada descia
A alma penada
Do corpo saia
Mais uma
Desce outra
A conta subia
“já deu minha hora”
O garçom dizia
Não tem nada não
É só a saideira

Mas o papo tá bom
Então vamos andar
Logo ali na frente
Deve ter outro bar
E conversa vai
E conversa vem
Entre umas e outras
O barulho do trem
Mudamos de assunto
Já falamos de tudo
Falta cerveja
Sobra conteúdo
Não tem nada não
É só a saideira

Mas que horas são?
Já é madrugada
As ruas desertas
O pó na estrada
Da boca a fumaça
Se esvaia no vento
O relógio não pára
Se vive o momento
Aqui nada se perde
Tudo se ganha
Às vezes se bate
Às vezes se apanha
Mas não tem nada não
É só a saideira

Segue (M. Sales)

O traje que veste o corpo
Ultraje de todo torto
Camada de fino lírio
Pomada para o delírio
O papo que cala a boca
O trapo que cai da louça
O cesto que tece a festa
Cabresto que não me resta
O ensejo para o infinito
O beijo mais bonito

Rapto (M. Sales)

Nada oculto me interessa
Nenhuma profundidade
Só a fina camada da pele
A maquiagem do rosto
A imagem na tela
O disfarce
Somente
“O simulacro é verdadeiro”
Nenhuma voz do alto
Qualquer modelo
Revoluções mundiais
Nada disso
Pra tudo isso
Estou cego
Mudo
Surdo
Farto
Incrédulo absurdo
Sem alternativas
“Incredulidade em relação
às metanarrativas”
Não busco o contexto
Não tenho pretexto
“Não existe extratexto”
É só o ato
O acontecimento
O intento
É disso que eu gosto
Do riso que rasga
Da força imperiosa
Que requer refém
Pra depois do além
“fazer um filho pelas costas”
E desaparecer
“como um rosto de areia
na beira do mar”

Vão (Theobaldo Villela)

Minha vida está por um triz
Já rasguei o meu nariz
Dilacerei meu pulso
E narrei a minha dor
Sem saber pra onde vou
Sigo a ermo
Suado, calado
Mas com um grito contido
Que ninguém quer ouvir
Por isso engulo
E volto a curtir
Meus instantes de solidão
Que vão vagando
De vão em vão
Sem resistir
Pois lutar
É em vão

Ponto (M. Sales)

Nada me basta… quero
Sempre que espero… encontro
Uma visão vasta… nego
Nada além do ponto

“O homem morre” (jose mauro fernandes)

O homem morre de tifo, de sarampo
De erro médico e doença rara
Morre de AIDS, mas segundo os parentes,
Foi pneumonia
Morre menino – nem bem viveu –
Maldade Divina!Acusa o ateu

De tamanha solidão morre sozinho,
Porém que ironia, todos vão ao seu enterro
Morre na procura da paz e na ignorância da guerra

Morre assassinado pedindo reforma agrária
E ganha sete palmos de terra,
Que aduba com a putrefação corpórea

Morre de bala perdida que o encontra
E no lugar de um outro, na bala da vez

Morre galinha – adúltero – nos dentes da raposa
Constrangendo a família, na dúbia dor da esposa

Morre no tráfico e no tráfego,
Sem consciência morre louco, ouvindo vozes
E sem saber dar um basta, no falso prazer do vício, de overdose
Na ilha da fantasia, lugar paradisíaco
E sem dar tempo para nada, de congênitos problemas cardíacos

Morre de manhã, morre à tarde e à noite
Em meio a carícias que se excedem em açoites
Nos exageros, morre de gula
Também de fome, sem saber das delícias
Morre sem proteção pela própria polícia
e da “injustiça” da pena de morte

Morre afogado, vítima de um naufrágio,
E quando náufrago sobrevive
Morre de sede no meio do oceano
Morre também da seca no deserto de soluções políticas

E mesmo, quando, com toda cautela
Não escapa da inevitável mesmice
Um dia, já sem forças, ele morre de velhice.

Anúncio (M. Sales)

Tomando logo de início
Arrisco-me neste precipício
Que resolvi improvisar
Não se trata de comício
Me parece mais um vício
Que não penso em dispensar
Não haverá maior indício
Que indique o interstício
Que eu quero provocar
Nem por conta de suplício
Ou de outro sacrifício
Penso em desanimar
Vou louvar o meretrício
Em coral com o pontifício
Até o sol raiar
E se o tempo for propício
Vou forjar um estrupício
Para tudo bagunçar
Chamarei o meu patrício
Para este particípio
E quem mais quiser entrar
Não me diga que é difícil
Que será um desperdício
Pois ninguém vai escutar
Este é o meu ofício
Cutucar o orifício
Para a luz poder entrar

Faustiando os versos (M. Sales)

O que vale o conhecimento?
O tormento de um copo vazio
Copo furado, sem fundo
Que não cabe o mundo
Que se esgota num segundo
Não vale a canção que se canta
A beleza que encanta
Da eterna Margarida
Também sofrida
Submetida à fagulha do tempo
Aos dissabores do vento
Às intempéries do momento
Mas há que se fazer o pacto
De morte
De vida
Da carne partida
Da veia vertida
Desejar Margarida
Como se deseja o instante
Perdendo de vista o eterno
O perene e constante
Se entregando ao inferno
Se entregando o bastante
Para ter Margarida
Querida
Se não vale o conhecimento
Que faça valer a vida

Viva a Vida (C.Martins)

Ah, a vida!
Vida fugaz
Vida sem paz!
Vida louca
Louca que rouba
o afago
o contato.

Ah, a vida!
Vida abundante

Vida errante
Vida alucinante
Alucinante a dor
o desejo
o beijo.

Ah, a vida!
Vida longa

Vida sem abraço
Vida no laço
No laço do momento
do sofrimento
do sentimento.

Ah, a vida!
Vida apraz

Vida fugaz
Vida absurda
Absurda é a relação
a emoção
o coração.

Oh, essa vida!
Tão linda e tão finita
Nascida e morrida.

[...]

Brinde a vida!
Saude a morte!
Agradeça a sorte
Mas brinde a vida.

Não sou (Theobaldo Villela)

Quem é você?
Que rosto é esse?
Sua personalidade?
Seu interesse?
Homem, branco, cristão
Pai, marido, mulher
Forte, destemido, cidadão
Cheio de esperança e de fé
Trabalhador e fiel
Incansável amante
Um louco desvairado
Um poeta delirante
Cumpridor dos deveres
Um sujeito normal
Negro, puta, criança
Homossexual
Malandro e preguiçoso
Excepcional
Muito perigoso
Um ser racional
Inteligente e bondoso
Temperamental
Meticuloso
Sem sal
É um criminoso
Bandido e cruel
Mas é amoroso
Esse vai pro céu
Safado, corrupto
Filho da puta
Pau pra toda obra
Não foge da luta
Brasileiro
Então é fudido
Rouba mas faz
Mudou de partido
Solidário e ateu
Crê-se anarquista
Conquistador
Faz pinta de artista
Esquizofrênico
Dizer traiçoeiro
Ou seria um bon vivent
Amigo, companheiro
Não sou nada disso
Não tenho rosto nenhum
Não quero compromisso
Nem parentesco algum
Não caibo em nenhuma roupa
Já esqueci o que fui
Perdi a persona
Quebrei o espelho
Rasguei a fotografia
Queimei os arquivos
Neguei a mim mesmo
A ser sempre o mesmo
Recusei o eu

“Plenilúnio” (jose mauro fernandes)

Aspirina flutuante
Sobre minha cabeça
A leve companheira
Alivia os meus “ais”
A cumplice de meus pecados
Pela noite adentro

Derramas em mim
Um branco límpido
(luar de prata)
E alucina essa lucidez tão falsa
Lua doce, lua alva
Ao despir-se na rima crua
Nua lua, lua nua
No ar “noir”

Permissão para pousar em tua tez
Peço eu impaciente
Aos guardiões de teu brilho
- Cavalo, armadura e lança -
E delíro no teu sexo
Como quem dança

E no afã de tê-la
- Canso -
Mas depois gozo os prazeres
De conhecê-la

Um quase nada (Karla Oldane)

Vai chorar, vai sofrer
Porque esta carne
Ah, esta carne vai perecer

O sangue que lava o asfalto
Não é sagrado
ninguém quer saber da tua dor

A marca nos rostos desfigurados
É só mais um fato
Não interfere mais nem causa pavor

Um dia Deus, quem sabe
Outros possam de prosperar
Por enquanto,
Imagético
Vai sofrer, vai chorar

Desencontros (C. Martins)

Na solicitude do desejo
Entrego-te um beijo
Escandaloso e tímido
Revelador e oculto
Contido e ressentido
Inquietação

Ouço o ressoar da hora
É tarde agora!
Que posso lá fora?
Adivinho a dúvida
Calo-me inseguro

A vida escorrendo
Entre as mãos
E o pulsar do coração
Lento – solitário.
Tempo

É tarde agora -
murmura o vento.
Elevo-te ainda a face
Num supremo gesto
Assustado e dorido.
Parto:
Não é aqui
o meu lugar.

Entre nós, só a lua (Hortência)

Este dilema eu preciso vencer
O meu coração terá que entender
Pois vivo num mundo cheio de regras
Muitas das quais eu não as vi fazer

Quão difícil é essa ciência
Onde a existência precede a essência
Outros já dizem que isso é um erro
Que é a essência que surge primeiro

Nascer nesse mundo cheio de normas
É trazer prescrito á própria forma
Caminhos preditos que coisa horrenda
Ver o mundo da fôrma por uma fenda

Foucault nos fala de tal violência
Pois corpos dóceis enfraquecem a essência
Ser submisso agrada o sistema
Mas, meu coração reclama o esquema

Enquanto eu canto, meu coração chora
Às vezes choro, e meu coração sorrir
Fico, mas com ânsias de ir embora
Vou-me embora sem vontade de partir

Fez de tudo o meu pobre coração
Tentando as regras obedecer
As regras do jogo só dizem que não
Mas, não me ensinam a te esquecer

Já não ouço Buckley, já não curto Moska
Ainda que a vida se torne tão fosca
Não brigo com Nitzsche, não leio Platão
Até deixei mudo o meu violão

Para não despertar lembranças tua
Mas, eu me pego olhando pra lua
E a lua sorrindo me revela
Que também estás olhando pra ela

Ditirambo (M. Sales)

Pensando em ti
Lembrei do Di
Cavalcanti
Ali na estante
Ele estava Di`stante
Coberto de pó
Eu aqui só
Hermético
Num tom anti-ético
Instante pó`ético
Em meio ao incenso
Agora penso
Que me resta o ato
Sem qualquer artefato
Do momento insens`ato
E volto pra ti
Com os versos que Di
Pintou tão disperso
Em sons desconexos
Sobre tons Di`versos

À Revelia (Marcele Cypriano)

Não sintas saudade de outrora!
Donde vem a melancolia?
Por acaso, tu não sabias,
Que um dia é chegada a hora?
Que os tempos, ora, tão castos,
Vão feito velhos sargaços,
Que os ventos irão carregar…
E tuas águas, um dia vorazes,
Mostrar-se-ão em calmaria.
Inebriantes de maresia,
Nas encostas vão se arriscar.
Mas não temas o teu destino.
Segue teu rumo,
Corriqueiro, tranqüilo;
Para tornaste mais que isso
E encher-te de outro viço,
Águas dos rios não podem,
Evitar teu despejo no mar!
Desaguar tuas águas é feito,
Recriar-se sem ter que cessar.

Nós… Amigos (Cida Donato)

Nós na amizade, em nós,
em traços, a sós.
Antes e depois, dos nós…
Quem sabe?
Sussurros, segredos,
Cumplicidade: nos nós e em nós.
Dos cinco, os quatro e menos um.
Perdido, partido, quebrado.
Dos quatro, os cinco: mais uma.
Achada, brindada,
Reencontrada a amizade:
Os nós, atados, selados,
Distantes… Presentes… Constantes.
Agora: Saudade…

Poetização (M. Sales)

A poesia é estanque
Quebra de contrato
Sem função
Sem lógica
Sem identidade
É puro processo
Movimento
Devir
Água mole
que escapole
pelos poros
do ser
Transpiração
É minoria
É rebeldia
Transgressão
Força que deseja
Peleja
Criação
Poesia é resistência
Singularização
É grito
Desdito
Maldito
Canção

“Quintana” (José Mauro Fernandes)

Desesperado e louco
E furando a madrugada
O poeta foi caçar
Umas rimas

Escreveria
Um conto de reclamações
Não fossem tão fugidias
As palavras
Borboleteando
Pelos ares

Ébrio
Cambaleou pelo refrão
Da noite inteira

E
Como a companhia da caneta
Por si só não faz o poema

Adormeceu bêbado
Sobre
A manhã
Cansada

“CD” (José Mauro Fernandes)

Quero te dizer:
-Toda vontade que começa com um erro
é
verbalizada sensação de onde vêm esses desejos. (errôneos?)
De onde vêm?
Você que me atingiu por dentro
Enquanto eu me protegia da parte interna
Enquanto eu abria o meu peito ao corpo
Enquanto eu deixava os flancos descobertos
Para você descobrir
E me desprotegia.
Enquanto eu chegava e avisava com e-mail
Enquanto eu entrava com permissão pelos teus meios
Enquanto eu revirava teus cantos
Vasculhando sustenidos e bemóis,
Entre teus gemidos,

Fervendo de ciúmes
De mim mesmo
Enquanto eu era já outro que tu querias ver ali.
Um outro.
Enquanto,
Ingenuamente,
Eu dançava tangos, boleros e todos os sons
pra “CD”.

Vento vela (M. Sales)

O vento que sopra a vela
Às vezes arrasta o barco
Pra mares que se navega
Sem que se veja o rastro
E assim longe do cais
No meio da imensidão
Não nos lembramos mais
Dos tempos de solidão

A lua que acompanha
O rosto pela janela
O vento que agora sopra
A onda que se revela
Ainda que tudo passe
Tem a lua que nos vela

Companheiros (M. Sales)

Eles nunca me deixam só
São eternos companheiros
De uma longa jornada
De vez em quando se silenciam
Mas estão sempre por perto
Despertos
Olha quem vem lá
Parece sempre um menino
Arteiro, moleque
Ensinando a ser gauche na vida
Drummond de todos nós
E entre os girassóis
Quantos de nós nos porões
A ver navios
Alves dos rios
Castro`s
Camões e antigas canções
De dias tão distantes
Gonçalves Dias bastante
Lembranças, saudades
Presença dos Andrades
Das cantigas das cidades
Seus dias de flor
Guimarães Rosa
Doce sabor dos sertões
E também Euclides
Entre terras e canhões
Lembranças de Veríssimo
Belíssimo
De força belical
Muitíssimo agradável
Claridade matinal
Clarice Lispector
Aspecto visceral
Palavras dançantes
Suassuna temporal

(de Manga Rosa)

Fruta de vez temporana,
poderia assim dizer,
é o fruto do poema nômade,
que se vivencia no segundo que não volta mais…
como a fabulsa arte da prolixidade,
efêmero em si…
inspira essa moléstia inspiradora que é a própria vida…

Criado nesse instante, à exaltação do mais perfeito verso que é a autoria própria do ser humano, o pensamento divagado e exalado sem contorno…
cru
especifico,
mistico e racional
quero parar de poetizar…
mas enquanto viver, e romancear os filmes vívidos…
esse vício
não vai me deixar…

Non-sens (M. Sales)

Uma imagem sem foco
Rastro
Um reflexo sem nexo
Penso
Um vazio com nada
Acho
Um instante qualquer
Intenso

Vidro embaçado (Aline Cunha)

Um traço de embaraço corre nas veias de um mundo em descompasso
Uma realidade que vive fora da realidade real de outrora
Em desatino o sol que ficou sombrio diante do escuro de um ciclo
Vejo o que antes seria razão se transformar no descaramento anunciado de covardes
Um mundo que era embalado no melhor papel de presente da lojinha, hoje é encoberto pelo papel fosco da arrogância
Os passos da semana que passou estão em cima do meu muro esperando a hora de dar o bote
O que ficou atrás da minha sombra busca um sentido para ser mais correto
A imagem que reluzia aquela felicidade, hoje é uma imagem embaçada, pois o vidro não é mais aquele
Um mundo de divisões, onde a metade que fica é a metade de feridas
O policial, aquele mesmo que protegia, hoje é sinal de delinqüência
Este mundo que eu infelizmente mostro a você,
É o mundo que você vive…

(de Aline Cunha)

“Nada melhor que a poesia para regar uma vida de arbustos vastos,
Nada melhor que a palavra saltada do papel para dar brilho aos olhos cansados,
Nada melhor que um boteco para “afogar” as mágoas de um papel em branco”

Devir (M. Sales)

Nem tudo que apanho pago
Vago
Às vezes me pego envolto
Solto
A tosse afaga o peito
Feito
Toalha que molha o rosto
Folha
Que voa breve
Leve
Rasgada pelo momento
No vento
Sangue sabor de neve
Que segue
O corte com cheiro de tempo
Lento

Mundo infinito (M. Sales)

A gente fica querendo mudar o mundo
Mas o mundo não está nem aí
Ele segue seu curso
Ele toca seu barco
Indiferente ao que a gente pensa dele
Utilizando o que a gente faz nele
Ele tem sua própria lógica
E nós aqui pensando que somos o tal
Que temos o controle
E que sabemos o que estamos fazendo
E aonde vamos parar
Quimeras
Não passamos de corpos
Que se encontram com outros corpos
E a partir daí
As coisas acontecem
O mundo é a força dos encontros
Que tudo move
Nada fica no lugar
Nada permanece o mesmo
Nada é vazio de sentido
Até uma gota de chuva
Que cai no oceano
Faz uma grande diferença
O melhor não está por vir
O melhor é aqui
O momento ligado ao infinito
O atual preso ao virtual
O presente na eternidade
Partes da totalidade
Pêndulo solto no abismo
De nós mesmos

Encontros (M. Sales)

Há encontros que pesam na alma
Outros que a tornam mais bela
Uns que perturbam a calma
E os que são doces quimeras
Aqueles que causam um trauma
Os que põem flor na janela
Os que não merecem palmas
E os que são dignos delas

Terra de ninguém (Jasmim)

Ah! Quem me dera
Que nessa guerra
Eu fosse vencida
E Levada cativa
À terra bendita
Que me faz ir além
Ah! Quem me dera
Pousar nessa terra
Onde o coração
Tem a voz da razão
E tal o pecado
Nunca foi encontrado
Ah! Quem me dera
Habitar nessa terra
Onde a fidelidade
É ter liberdade
De romper com o véu
E penetrar no teu céu
Ah! Quem me dera…

Loucura (M. Sales)

Não há cura que dê jeito
No cantar da loucura
Quando pulsa no peito
E os órgãos tritura
Anima os defeitos
E o novo inaugura
Sem afeto ou despeito
Com ardor e candura
Se confunde com feitos
Sua própria mistura
Dissonantes perfeitos
Que no tempo matura
Sorrisos suspeitos
Com ar de amargura
Caminhos estreitos
Com fenda, fissura
Detrita os direitos
Os santos tortura
E faz do sujeito
Uma fruta madura
Que cai com efeito
Da densa altura
Despenca no leito
Vertigem, tontura
Sem dó nem respeito
Àquilo que dura
Deixando desfeito
O sinal de procura
Não há quem dê jeito
Não há quem dê cura

“com as palavras certas as mãos viram línguas,

e as palavras ciganas dançam aos sons uivantes…” (Manga Rosa)

Movimento (M. Sales)

Qual é sua fuga?
Sua força motriz
Seu ar puro
Sua solidão
É preciso morrer
Se jogar contra o muro
Pular no abismo
Encolher as mãos
Se perder de vista
Não mais esperar
Tudo querer
Gritar, gritar
Fazer zunir nos ouvidos
Produzir cortes
Provocar fissuras
Rir na cara da morte
Promover rupturas
Ensaiar os pares
Construir os duplos
Espalhar pelos ares
Entrar no deserto
Vagar clandestino
Gerar vibrações
Movimentos contínuos
Intensidades
Diversidades
Linearidades
Cortar para se expandir
Calar-se para dizer
Apagar para fazer luzir
Morrer para renascer

A voz do mar…

O vento veio tatuou meu coração
E o meu corpo, já não ouve a razão
Vai noboteco e deixa o copo vazio
E só quer ouvir o mar macio.
(Jasmim)

Quimera

A brisa, sibilante, sopra nossa canção,
E a sombra baila à luz da clara lua;
Fecho meus olhos na dura solidão,
Trazendo a mente, a bela imagem tua;

E nem respiro enquanto a imagem espreita,
Os olhos meus, de fitar não cansa;
Ainda, que aviva a mais cruel lembrança,
Daqueles dias cheios de esperança…
(Jasmim)

Que se viva sempre boas confabulações,

e que a harmonia reine eternamente,

romancear cada palavra e senti-las enfim…

(Manga Rosa)

Jasmim é bela flor
Imagem da pureza
Talisman do puro amor
Orgulho da natureza

(Jasmim)

28 Comentários »

  1. Quanta honra!!! Já que gostou, vou arriscar e deixar mais uma.
    Quimera

    A brisa, sibilante, sopra nossa canção,
    E a sombra baila à luz da clara lua;
    Fecho meus olhos na dura solidão,
    Trazendo a mente, a bela imagem tua;

    E nem respiro enquanto a imagem espreita,
    Os olhos meus, de fitar não cansa;
    Ainda, que aviva a mais cruel lembrança,
    Daqueles dias cheios de esperança…
    (Jasmim)

    Comment por Jasmim | 09/07/2008 | Responder

  2. Gostei de poetar…rss

    A voz do mar…

    O vento veio tatuou meu coração
    E o meu corpo, já não ouve a razão
    Vai noboteco e deixa o copo vazio
    E só que ouvir o mar macio.
    (Jasmim)

    Comment por Jasmim | 10/07/2008 | Responder

  3. Mui belo!!! Adorei…

    Comment por marciosales | 10/07/2008 | Responder

  4. Não sei o que vc faz melhor, Discorrer sobre filosofia, defender grandiosamente seus pensadores estimados, ou poetar… Este último poema ” loucura” belíssimo. Bem, queria aproveitar e pedi-lhe desculpas pelo comentário um tanto impolido sobre Nietzsche. Vc tem razão, o problema é quando o outro é um espelho, reflete exatamente aquilo que não queremos ver. Nietzsche pelo menos teve a coragem de enlouquecer… bjs.

    Comment por Jasmim | 14/07/2008 | Responder

  5. Terra de ninguém (Jasmim)

    Ah! Quem me dera
    Que nessa guerra
    Eu fosse vencida
    E Levada cativa
    À terra bendita
    Que me faz ir além
    Ah! Quem me dera
    Pousar nessa terra
    Onde o coração
    Tem a voz da razão
    E tal o pecado
    Nunca foi encontrado
    Ah! Quem me dera
    Habitar nessa terra
    Onde a fidelidade
    É ter liberdade
    De romper com o véu
    E penetrar no teu céu
    Ah! Quem me dera…

    Comment por Jasmim | 15/07/2008 | Responder

  6. Como você diz, seu poetar é encantador… Quanto a Nietzsche não há o que se desculpar, pois “nessa guerra” só há vencedores. Ganha eu, ganha você e todos os botequeiros de plantão. E por falar nisso, pela pista da Leandra, hoje tem festa no boteco. Vamos brindar: Parabéns Jasmim!!! Bjs

    Comment por marciosales | 16/07/2008 | Responder

  7. “Nada melhor que a poesia para regar uma vida de arbustos vastos,
    Nada melhor que a palavra saltada do papel para dar brilho aos olhos cansados,
    Nada melhor que um boteco para “afogar” as mágoas de um papel em branco”

    Comment por Aline Cunha | 30/07/2008 | Responder

  8. Como fã da poesia que sai da alma, não poderia deixar de participar deste ambiente leve e magnífico…

    Márcio estarei por aqui sempre para um bom papo de boteco, ou melhor uma boa poesia de boteco…!

    Comment por Aline Cunha | 30/07/2008 | Responder

  9. Que maravilha Aline. Inunda o nosso boteco com a sua alma cheia de poesia. Bjs

    Comment por marciosales | 30/07/2008 | Responder

  10. Vidro embaçado

    Um traço de embaraço corre nas veias de um mundo em descompasso
    Uma realidade que vive fora da realidade real de outrora
    Em desatino o sol que ficou sombrio diante do escuro de um ciclo
    Vejo o que antes seria razão se transformar no descaramento anunciado de covardes
    Um mundo que era embalado no melhor papel de presente da lojinha, hoje é encoberto pelo papel fosco da arrogância
    Os passos da semana que passou estão em cima do meu muro esperando a hora de dar o bote
    O que ficou atrás da minha sombra busca um sentido para ser mais correto
    A imagem que reluzia aquela felicidade, hoje é uma imagem embaçada, pois o vidro não é mais aquele
    Um mundo de divisões, onde a metade que fica é a metade de feridas
    O policial, aquele mesmo que protegia, hoje é sinal de delinqüência
    Este mundo que eu infelizmente mostro a você,
    É o mundo que você vive…

    Aline Cunha

    Comment por Aline Cunha | 31/07/2008 | Responder

  11. Fruta de vez temporana,
    poderia assim dizer,
    é o fruto do poema nômade,
    que se vivencia no segundo que não volta mais…
    como a fabulsa arte da prolixidade,
    efêmero em si…
    inspira essa moléstia inspiradora que é a própria vida…

    Criado nesse instante, à exaltação do mais perfeito verso que é a autoria própria do ser humano, o pensamento divagado e exalado sem contorno…
    cru
    especifico,
    mistico e racional
    quero parar de poetizar…
    mas enquanto viver, e romancear os filmes vívidos…
    esse vício
    não vai me deixar…

    Manga rosa…

    Comment por Manga Rosa!!! | 07/08/2008 | Responder

  12. Lindoooooooooooo…
    Adorei

    Comment por Chirles | 09/09/2008 | Responder

  13. Já que todo mundo fez, eu vou fazer também! rs

    À Revelia

    Não sintas saudade de outrora!
    Donde vem a melancolia?
    Por acaso, tu não sabias,
    Que um dia é chegada a hora?
    Que os tempos, ora, tão castos,
    Vão feito velhos sargaços,
    Que os ventos irão carregar…
    E tuas águas, um dia vorazes,
    Mostrar-se-ão em calmaria.
    Inebriantes de maresia,
    Nas encostas vão se arriscar.
    Mas não temas o teu destino.
    Segue teu rumo,
    Corriqueiro, tranqüilo;
    Para tornaste mais que isso
    E encher-te de outro viço,
    Águas dos rios não podem,
    Evitar teu despejo no mar!
    Desaguar tuas águas é feito,
    Recriar-se sem ter que cessar.

    Comment por Marcele Cypriano | 10/09/2008 | Responder

  14. ENTRE NÓS, SÓ A LUA

    Este dilema eu preciso vencer
    O meu coração terá que entender
    Pois vivo num mundo cheio de regras
    Muitas das quais eu não as vi fazer

    Quão difícil é essa ciência
    Onde a existência precede a essência
    Outros já dizem que isso é um erro
    Que é a essência que surge primeiro

    Nascer nesse mundo cheio de normas
    É trazer prescrito á própria forma
    Caminhos preditos que coisa horrenda
    Ver o mundo da fôrma por uma fenda

    Foucault nos fala de tal violência
    Pois corpos dóceis enfraquecem a essência
    Ser submisso agrada o sistema
    Mas, meu coração reclama o esquema

    Enquanto eu canto, meu coração chora
    Á às vezes choro, e meu coração sorrir
    Fico, mas com ânsias de ir embora
    Vou-me embora sem vontade de partir

    Fez de tudo o meu pobre coração
    Tentando as regras obedecer
    As regras do jogo só dizem que não
    Mas, não me ensinam a te esquecer

    Já não ouço Buckley, já não curto Moska
    Ainda que a vida se torne tão fosca
    Não brigo com Nitzsche, não leio Platão
    Até deixei mudo o meu violão

    Para não despertar lembranças tua
    Mas, eu me pego olhando pra lua
    E a lua sorrindo me revela
    Que também estás olhando pra ela

    Comment por Hortência | 16/09/2008 | Responder

  15. Márcio, meu querido
    Depois de tomar todas no boteco
    vou ao encontro da lua

    “Plenilúnio” (jose mauro fernandes)

    Aspirina flutuante
    Sobre minha cabeça
    A leve companheira
    Alivia os meus “ais”
    A cumplice de meus pecados
    Pela noite adentro

    Derramas em mim
    Um branco límpido
    (luar de prata)
    E alucina essa lucidez tão falsa
    Lua doce, lua alva
    Ao despir-se na rima crua
    Nua lua, lua nua
    No ar “noir”

    Permissão para pousar em tua tez
    Peço eu impaciente
    Aos guardiões de teu brilho
    – Cavalo, armadura e lança -
    E delíro no teu sexo
    Como quem dança

    E no afã de tê-la
    – Canso -
    Mas depois gozo os prazeres
    De conhecê-la

    Comment por ze mauro zigfrid | 19/09/2008 | Responder

  16. Olá José M. Fernandes, noboteco é um lugar surpreendente ; a liberdade de interatuar faz surgir coisas belíssimas…Curiosamente, Fernando Pessoa nos seus English Poems, assim como, Mário de Sá-Carneiro, Antonio Botto, Jorge de Sena, entre muitos outros, celebram nos seus escritos os rituais de Eros. De forma semelhante, o poema “Plenilúnio” se envolve em tais rituais sem perder em momento algum o romantismo,o encanto e a elegância. Que primor!!!

    Comment por Hortência | 23/09/2008 | Responder

  17. Se é pra livre expressão então vai:

    Não sou (Theobaldo Villela)

    Quem é você?
    Que rosto é esse?
    Sua personalidade?
    Seu interesse?
    Homem, branco, cristão
    Pai, marido, mulher
    Forte, destemido, cidadão
    Cheio de esperança e de fé
    Trabalhador e fiel
    Incansável amante
    Um louco desvairado
    Um poeta delirante
    Cumpridor dos deveres
    Um sujeito normal
    Negro, puta, criança
    Homossexual
    Malandro e preguiçoso
    Excepcional
    Muito perigoso
    Um ser racional
    Inteligente e bondoso
    Temperamental
    Meticuloso
    Sem sal
    É um criminoso
    Bandido e cruel
    Mas é amoroso
    Esse vai pro céu
    Safado, corrupto
    Filho da puta
    Pau pra toda obra
    Não foge da luta
    Brasileiro
    Então é fudido
    Rouba mas faz
    Mudou de partido
    Solidário e ateu
    Crê-se anarquista
    Conquistador
    Faz pinta de artista
    Esquizofrênico
    Dizer traiçoeiro
    Ou seria um bon vivent
    Amigo, companheiro
    Não sou nada disso
    Não tenho rosto nenhum
    Não quero compromisso
    Nem parentesco algum
    Não caibo em nenhuma roupa
    Já esqueci o que fui
    Perdi a persona
    Quebrei o espelho
    Rasguei a fotografia
    Queimei os arquivos
    Neguei a mim mesmo
    A ser sempre o mesmo
    Recusei o eu

    Comment por Theo | 01/10/2008 | Responder

  18. Em dias difíceis como esses o boteco tem sido a única companhia que me resta. Talvez meu desabafo…

    Vão (Theobaldo Villela)

    Minha vida está por um triz
    Já rasguei o meu nariz
    Dilacerei meu pulso
    E narrei a minha dor
    Sem saber pra onde vou
    Sigo a ermo
    Suado, calado
    Mas com um grito contido
    Que ninguém quer ouvir
    Por isso engulo
    E volto a curtir
    Meus instantes de solidão
    Que vão vagando
    De vão em vão
    Sem resistir
    Pois lutar
    É em vão

    Comment por Theo | 22/10/2008 | Responder

  19. Caro Theo, apesar de não te conhecer, a não ser pela tua poesia tão visceral, quero reafirmar que o boteco é um ponto de encontro pras pessoas se sentirem à vontade. Use-o como achar melhor… abç

    Comment por marciosales | 22/10/2008 | Responder

  20. Depois de alguns dias ausente, um poema de tempos distantes:

    Um olhar… (Theobaldo Villela)

    Algo Indefinido Demarcou o seu Sítio
    Alojou-se Incerto Decidido a Surdir
    Absoluto Impôs-se Descendo no Sangue
    Armando Infame um Destino a Seguir

    Algoz Implacável que Destrói a Seiva
    Anjo Infernal que Devora o São
    Absinto Ímpio de Decisão Sobranceira
    Abismo Impetuoso que Deita Solidão

    Apaga a Ilusão de Dias Solares
    Aurora Ignora e Deixa Sumir
    Arranca Impávido o Deflagrado Sopro
    Antes que Intentem do Domínio Sair

    Assim no Íntimo Dói a Sentença
    Aquela Impressão do Derradeiro Sinal
    Antecipa-se o Instante da Despedida Solene
    Acaba a Impulsão do Dom Seminal

    Agora Infausto Disposto a Sofrer
    Atado Inerte em Dosagens Sem-fim
    Assim como a Ilha que Descobre-se Solta
    Ando Indigente Dizendo Sim

    Algo Insurja Desviando esta Sina
    Arruinando o Império Deste Sentimento
    Abra o Inferno e me Deixe Sair
    Alivie a Intensa Dor do Sofrimento

    Comment por Theo | 12/11/2008 | Responder

  21. mARCIO ACHO QUE A POESIA ESTÁ ENTORNO E DENTRO E MESMO ASSIM AGENTE SAI À SUA PROCURA.

    “BUSCA”

    Quero o sabor do sorriso
    Na boca da poesia

    Buscà-la vou
    No espaço albino
    De qualquer caderno
    Na solidão do vão
    Da folha única
    E na coleção de saudades
    Em branco e preto

    Na memória desbotqada
    Da infância
    E nas perdas e danos
    Que brotam desta distância

    Necessário é obtê-la
    Dos anjos, dos diabos
    E outros artifícios
    Dos àlcoois, dos cigarros
    E nas dores de outros vícios

    Nunca esperà-la
    Fosse ela só
    Só inspiração

    Porque ela existe
    E está
    Na febre que acomete-me
    As noites em claro
    Enquanto domo
    A selvagem beleza
    Das palavras em sono ( Josè Mauro Fernandes)

    Abração , Márcio e felicidades

    Comment por ze mauro zigfrid | 15/11/2008 | Responder

  22. “Intervalos”(José Mauro Fernandes)

    Nascer é óbvio
    Morrer inevitável

    Nesse intervalo
    Prevalece
    Nossa opção

    Existir
    É a alegria ou tristeza
    de viver isto

    Comment por ze mauro zigfrid | 15/11/2008 | Responder

  23. Do amor (subjetivo)
    Já falou-se tanto do amor

    E haverá muito o que falar

    Pois o amor é um poço

    Inesgotável

    Impossível de secar

    Do amor não se tem medo

    Vai-se ao fundo

    E bem sério

    Desvendar todo segredo

    Mesmo sem poder expressar

    Todo Mistério

    Mal de amor

    Não tem remédio

    Ele próprio é a poção

    Outro amor lhe tira o tédio

    E também da solidão

    E amar é como

    Navegar em alto mar

    Sentir presságios de perigo

    Sobreviver de um naufrágio

    E se achar forte

    Mesmo sendo frágil

    Zémauro Fernandes/Marcos Moreno
    Diga lá meu meu querido, Márcio
    Estamos com saudades bjos e abraços

    Comment por ze mauro zigfrid | 05/05/2009 | Responder

  24. esperamos te ver sempre
    e melhor ainda queremos e iremos te ver
    aonde for.((bárbaros do blues)
    O professor ( como fazem os bons) SE MULTIPLICAM
    EM NÓS, alunos.
    vou deixar uma simples de minha vida.

    “Poesia crua”

    Asso carnes
    e frito batatas
    Mas me alimento
    mesmo
    É da poesia crua!

    Jose Mauro Fernades

    Felicidades, “GRANDE AMIGO”

    Comment por ze mauro zigfrid | 10/05/2009 | Responder

  25. SOLIDÃO

    ELA NÃO ME INVADE
    NÃO CHEGA SEM PEDIR LICENÇA
    EU QUE A CONVIDO
    PARA PARTICIPAR DA MINHA INTIMIDADE
    ELA SUGERE REFLEXÃO
    REESTRUTURAÇÃO
    ME PEDE CAUTELA
    POR QUE TEMER A SOLIDÃO?
    VOU TE CONTAR UM SEGREDO
    A SOLIDÃO NÃO EXISTE
    TÃO POUCO É FRUTO DA IMAGINAÇÃO
    APENAS VOCÊ DISFARÇADO
    PARA SE OPOR A MULTIDÃO
    NÓS NÃO FICAMOS SOZINHOS
    E SIM,
    COM A GENTE MESMO
    REFLEXO NO ESPELHO
    A SOLIDÃO É UMA FARSA DO SUJEITO
    QUE PREFERE ENGANAR-SE
    A ADMITIR QUÃO CHATO ELE É
    EU VIVO SOLIDÃO
    RESPIRO SOLIDÃO
    EU SOU SOLIDÃO
    MAS AS VEZES PREFIRO CRER QUE NÃO

    Bruno Alves

    Comment por Bruno Alves | 17/05/2009 | Responder

  26. Acima,minha humilde contribuição!!
    Abração Márcio

    Comment por Bruno Alves | 17/05/2009 | Responder

    • Caro Bruno. Até que enfim! rsrs. O boteco agradece e aguarda muitas outras. Abç.

      Comment por marciosales | 20/05/2009 | Responder

  27. Cartão de Aniversário

    Depois de tantas voltas em torno do sol
    nem parece que você viajou tanto
    Parabéns!
    Éramos tolos e geniais,
    caminhávamos em gelo fino.
    E todos nós éramos frágeis
    e vivemos, juntos,
    algumas inseguranças,
    crises existenciais
    aprendizados empíricos.
    E nos fizemos adultos
    e partimos para outras estradas.

    compartilhamos choros e alegrias
    e os aniversários eram bem comemorados!
    Tu completas mais uma volta em torno do sol
    e sinto-me feliz por tua viagem!

    Felicidades e desejos de em tantas outras voltas eu possa estar aqui pra felicitar tua chegada!
    Beijos e Felicidades

    Jose Mauro Fernandes

    Comment por ze mauro zigfrid | 07/06/2009 | Responder


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