Subterfúgios
Tenho gosto pelas coisas baixas. É… as coisas que geralmente são desprezadas, abandonadas e consideradas sem valor. Frequento os brechós, coleciono quinquilharias, tô sempre atrás de umas bugigangas. É… gosto das coisas da terra, do chão. Admiro os que sabem voar. Os pássaros de voo alto, uma asa delta cortando o céu e até os balões colorindo o azul ou brilhando no escuro. Tudo isso me fascina. Quando criança fiz muitos balões. Naquela época não era crime soltar balão. Também, agora tudo vira crime! Mas prefiro os pés no chão. Sentir a terra molhada, ver a paisagem daqui mesmo e poder tocar com as mãos. É… tenho olhar rasteiro. Meu olhar acompanha os loucos, os marginais, os vagabundos. Ele adentra o submundo, o subterrâneo, o subúrbio. Os poetas que mais gosto flertaram com a loucura. Um dos meus preferidos é o Manoel de Barros. O poeta que canta as coisas ínfimas e as vidas infames. É… falo sempre em tom subjetivo. Tudo é questão de ponto de vista, de perspectiva. Os que olham do alto e se sentem donos da verdade me provocam náuseas. Minha voz é um eco dos subalternos, dos submissos, dos subtraídos. Dos que na condição de sub não souberam gritar. Mas não grito por ninguém, grito junto, pra engrossar o coro.
Márcio Sales
12 Comentários »
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Adoro sua releitura profana do cotidiano. Belíssimo texto.Bjs
*Mônica S. Vallim
Comentário por Anônimo | 17/07/2011 |
Então você é mais um eco pra engrossar o coro. Bjs
Comentário por marciosales | 18/07/2011 |
Adorei suas observações, eu também observo muito o chão, muitos sempre me dizem olhe para cima, levante a cabeça pensando que estou triste, mas de fato estou visualizando coisas ao meu “sub redor”, certo dia me chamou atenção uma moça que se banhava dentro do rio Maracanã, estava concentrada em seu banho como se não houvesse ninguém à sua volta, havia junta à ela uma ave tão branquinha que contrastava com a sujeira do rio e a moça no seu mundo imaginário que era um banheiro, fiquei um tempinho observando, queria poder ajudar, porém nesse mundo cruel e violento de hoje em dia é até complicado oferecer ajuda, já passei poucas e boas ajudando, mas não desisto.
É Márcio como disse e os que deveriam olhar por eles e para o nosso planeta são soberbos, realmente da nojo!
Comentário por Anônimo | 19/07/2011 |
Fico tão feliz de trabalhar com você, de engrossar o coro junto. Mas, diga, este grito tem a ver com o do Munch ou é de outro tipo? Me parece que ele não é de desespero não. Ou é?
Comentário por Bia Albernaz | 19/07/2011 |
Querida Bia, felicidade maior a minha. Pode ser sim o grito de Munch, com tudo o que ele tem de direito (ou torto). E se for de desespero, que seja um desespero criativo e não um desespero suicida. Bjks
Comentário por marciosales | 19/07/2011 |
E lá vou eu para o google para descobrir qm é Munch…rs
Comentário por Mônica S. Vallim | 20/07/2011 |
Sou fascinada por suas histórias, o retrato da vida está nas pequenas coisas e nas coisas baixas com certeza, olhar em vota no “sub redor” se encontra a alma da vida, vi esses dias uma moça a se banhar no rio Maracanã, junto a uma garça bem branquinha um contraste do rio imundo, ela na sua viajem imaginária, fiquei ali por um tempo observando, queria poder ajudar, mas em meio a tanta violência o medo seria das duas, já sofri muitas consequências sérias por ajudar, queria muito abrir os olhos dos “Soberbos” para isso, é quase uma luta vencida, os “patrões” do mundo. É isso aí vamos continuar! Bjs. “Cristiane S. Chagas”
Comentário por Cristiane S. Chagas | 19/07/2011 |
Então somos os subs do mundo. Bjs
Comentário por marciosales | 19/07/2011 |
“Mui belo”, a arte de dar a vida às coisas esquecidas…
Comentário por Lu | 04/08/2011 |
Valeu Lu!!!
Comentário por marciosales | 16/09/2011 |
Tá todo mundo aqui falando bonito sobre o seu texto, e bem, eu só quero dizer que eu também gostei muito, falar bonito eu não sei né, rs.
Saudade de você. Beijo tio ;*
Comentário por Rosa Cristina | 05/08/2011 |
Já falou bonito… Bjs Rosa
Comentário por marciosales | 16/09/2011 |