Subterfúgios
Tenho gosto pelas coisas baixas. É… as coisas que geralmente são desprezadas, abandonadas e consideradas sem valor. Frequento os brechós, coleciono quinquilharias, tô sempre atrás de umas bugigangas. É… gosto das coisas da terra, do chão. Admiro os que sabem voar. Os pássaros de voo alto, uma asa delta cortando o céu e até os balões colorindo o azul ou brilhando no escuro. Tudo isso me fascina. Quando criança fiz muitos balões. Naquela época não era crime soltar balão. Também, agora tudo vira crime! Mas prefiro os pés no chão. Sentir a terra molhada, ver a paisagem daqui mesmo e poder tocar com as mãos. É… tenho olhar rasteiro. Meu olhar acompanha os loucos, os marginais, os vagabundos. Ele adentra o submundo, o subterrâneo, o subúrbio. Os poetas que mais gosto flertaram com a loucura. Um dos meus preferidos é o Manoel de Barros. O poeta que canta as coisas ínfimas e as vidas infames. É… falo sempre em tom subjetivo. Tudo é questão de ponto de vista, de perspectiva. Os que olham do alto e se sentem donos da verdade me provocam náuseas. Minha voz é um eco dos subalternos, dos submissos, dos subtraídos. Dos que na condição de sub não souberam gritar. Mas não grito por ninguém, grito junto, pra engrossar o coro.
Márcio Sales
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