Andar no andor
“Carrego meus primórdios num andor.
Minha voz tem vício de fontes.
Eu queria avançar para o começo.
Chegar ao criançamento das palavras.”
(Manoel de Barros)
Há um ditado popular que diz: devagar com o andor que o santo é de barro. Manoel, que também é de barros, carrega seus primórdios num andor. Reverencia o início, o momento onde tudo principia; o lugar de onde tudo germina, onde tudo está em movimento e em plena transformação. Seu passado mais criativo e desejado soa como a voz de uma criança. Espanto, curiosidade, inquietação, deleite e simplicidade. Há muita vantagem na busca dessa fonte; por isso ela é carregada, com muito zelo, num andor. As crianças quando estão brincando levam muito a sério suas brincadeiras.
Mas o santo que está no andor é de barro. É frágil. Basta uma pequena distração e ele se quebra. Mas distração também é coisa de criança. É o divertimento que mora no esquecimento. Então é certo que ele vai se quebrar. E eis que de repente os primórdios se espatifam no chão. Isso acontece quando querem ser maiores do que aqueles que os carregam. O passado não pode se impor ao presente; não pode querer silenciá-lo; não pode servir de amarras para a força que quer se expandir e criar. Há uma certa desvantagem da história para a vida. Às vezes é preciso quebrá-la, parti-la ao meio, espedaçá-la para que não nos importune mais.
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