Retratos do fim do dia
Tudo virou crime. Um beijo na boca, um aperto de mão, um palavrão. A cor da tua camisa te torna suspeito. Teu corte de cabelo é uma indicação. Até o teu modo de andar te condena. Falar alto é um bom motivo para a tua prisão. Os guardas estão espalhados pela cidade à procura dos infratores. Quanto mais criminosos, mais soldados com os nervos de aço nas mãos. É a ordem, é a lei, é a civilização. Afinal, as coisas não podem sair dos trilhos. Mas para onde nos carrega este trem? Aponta para o rei uma pobre criança. O rei é o princípio e o fim. Então não tem por quê; não tem explicação. Foi decretado: em cada quarteirão haverá uma prisão. Para cada cidadão a referida guarnição. Ninguém está livre da força imperiosa da lei. Ninguém. Ninguém está livre.
E veio na lembrança a imagem de uma canção proibida – Hino de Duran
Se tu falas muitas palavras sutis
Se gostas de senhas, sussurros, ardis
A lei tem ouvidos pra te delatar
Nas pedras do teu próprio lar
Se trazes no bolso a contravenção
Muambas, baganas e nem um tostão
A lei te vigia, bandido infeliz
Com seus olhos de raios X
Se vives nas sombras, freqüentas porões
Se tramas assaltos ou revoluções
A lei te procura amanhã de manhã
Com seu faro de dobermam
E se definitivamente a sociedade
só te tem desprezo e horror
E mesmo nas galeras és nocivo,
és um estorvo, és um tumor
A lei fecha o livro, te pregam na cruz
depois chamam os urubus
Se pensas que burlas as normas penais
Insuflas, agitas e gritas demais
A lei logo vai te abraçar, infrator
com seus braços de estivador
Se pensas que pensas estás redondamente enganado
E como já disse o Dr Eiras,
vem chegando aí, junto com o delegado
pra te levar…
Nenhum comentário ainda.
Deixe um comentário
-
Recentes
-
Links
-
Arquivos
- Novembro 2009 (1)
- Outubro 2009 (1)
- Setembro 2009 (1)
- Julho 2009 (1)
- Junho 2009 (4)
- Maio 2009 (4)
- Abril 2009 (5)
- Março 2009 (5)
- Fevereiro 2009 (9)
- Janeiro 2009 (4)
- Dezembro 2008 (4)
- Novembro 2008 (3)
-
Categorias
-
RSS
Entradas RSS
Comentários RSS