“Navegar é preciso, viver não é preciso”
Os navegadores portugueses assimilaram a grandeza desta expressão na marra. Ávidos pelo novo e pelas suas riquezas fizeram-se senhores dos oceanos. Quantas viagens perdidas para se chegar à conclusão de que navegar exige precisão? Calcular a distância a ser percorrida, o tempo e os alimentos necessários, a direção do vento, a potência das velas, a quantidade de tripulação, tudo isso era indispensável para se chegar onde queria.

Mas ainda que tudo estivesse planejado, calculado, devidamente ajustado, ainda restava outra certeza: viver não é preciso. Se a arte da navegação requer precisão, a arte de viver é diferente. A vida é cheia de imprevistos, circunstâncias inesperadas, casos fortuitos. Viver é uma bruta incerteza em que nada garante o dia de amanhã. Viver é um lance de dados.
O passado não nos pertence mais, o futuro ainda não chegou; só nos resta o presente. A única maneira de interferir na própria existência é no aqui e agora. O hoje é o terreno da vida a ser cultivado.
Retratos do fim do dia
Tudo virou crime. Um beijo na boca, um aperto de mão, um palavrão. A cor da tua camisa te torna suspeito. Teu corte de cabelo é uma indicação. Até o teu modo de andar te condena. Falar alto é um bom motivo para a tua prisão. Os guardas estão espalhados pela cidade à procura dos infratores. Quanto mais criminosos, mais soldados com os nervos de aço nas mãos. É a ordem, é a lei, é a civilização. Afinal, as coisas não podem sair dos trilhos. Mas para onde nos carrega este trem? Aponta para o rei uma pobre criança. O rei é o princípio e o fim. Então não tem por quê; não tem explicação. Foi decretado: em cada quarteirão haverá uma prisão. Para cada cidadão a referida guarnição. Ninguém está livre da força imperiosa da lei. Ninguém. Ninguém está livre.
E veio na lembrança a imagem de uma canção proibida – Hino de Duran
Se tu falas muitas palavras sutis
Se gostas de senhas, sussurros, ardis
A lei tem ouvidos pra te delatar
Nas pedras do teu próprio lar
Se trazes no bolso a contravenção
Muambas, baganas e nem um tostão
A lei te vigia, bandido infeliz
Com seus olhos de raios X
Se vives nas sombras, freqüentas porões
Se tramas assaltos ou revoluções
A lei te procura amanhã de manhã
Com seu faro de dobermam
E se definitivamente a sociedade
só te tem desprezo e horror
E mesmo nas galeras és nocivo,
és um estorvo, és um tumor
A lei fecha o livro, te pregam na cruz
depois chamam os urubus
Se pensas que burlas as normas penais
Insuflas, agitas e gritas demais
A lei logo vai te abraçar, infrator
com seus braços de estivador
Se pensas que pensas estás redondamente enganado
E como já disse o Dr Eiras,
vem chegando aí, junto com o delegado
pra te levar…
Viva o cinema brasileiro

Ontem, 14 de abril, aconteceu no Rio de Janeiro uma das maiores premiações do cinema nacional: o Grande Prêmio Vivo do Cinema Brasileiro 2009. O evento é promovido pela Academia Brasileira de Cinema que está completando 7 anos. A iniciativa visa promover e incentivar a produção cinematográfica no país, que tem se mostrado cada vez mais frutífera. Hoje, qualquer pessoa amante da sétima arte, é capaz de contar nos dedos, sem parar muito pra pensar, 10 filmes brasileiros que se destacaram pela grandeza e qualidade. Eu mesmo, um simples apreciador, incluo um certo filme brasileiro entre os melhores que eu já assisti; refiro-me ao Lavoura Arcaica (2001), de Luiz Fernando Carvalho.
Mas a noite de ontem foi testemunha deste crescimento do cinema nacional. Entre os finalistas de melhor filme estavam: O banheiro do Papa, de César Charlone e Enrique Fernández; Ensaio sobre a cegueira, de Fernando Meirelles; Estômago, de Marcos Jorge; Linha de passe, de Walter Salles e Daniela Thomas. Meu nome não é Johnny, de Mauro Lima. O prêmio Grande Otelo da Academia foi para Estômago; mas, com certeza, os outros indicados eram concorrentes de peso.
Se os recursos para se fazer cinema no Brasil ainda são escassos, não resta dúvida de que criatividade é o que não falta. Que venham os recursos, mas que os filmes não caiam nas armadilhas do Mercado. Em sua grande maioria, o cinema comercial, a despeito de orçamentos suntuosos, é de uma pobreza infinita. As pessoas envolvidas com o cinema brasileiro têm demonstrado grande habilidade para fazer o coelho sair da cartola. Bom seria se a magia do cinema não dependesse tanto das mágicas dos seus idealizadores. De qualquer modo e por tudo isso que tem apresentado: Viva o cinema brasileiro!
Educação clandestina
O Brasil é formado por uma mistura de povos: os índios, os portugueses, os africanos, os franceses, os holandeses e assim por diante. A terra do pau-brasil, da cana de açúcar e das minas de ouro atraiu muitos olhares e provocou um turbilhão de experiências. Mas sempre sob a mira atroz e feroz de um Estado dominante, cujos interesses tinham que prevalecer a qualquer preço. Foi assim que a educação brasileira passou a ser conduzida pelas mãos ambiciosas dos jesuítas. Essa educação pretendia, dentre outras coisas, produzir uma população dócil, obediente, servil e cristã. Afinal, a demanda por mão de obra barata era grande. E de fato este objetivo foi atingido com uma boa parcela de colonos.

Mas nem todos se adaptaram ao modelo imposto. Houve por parte de índios, negros, brancos e mestiços, que não se submeteram ao sistema opressor, uma forte resistência. Considerados hereges, insubmissos e desalmados, foi instalada uma batalha sangrenta em nome da santa cruz da igreja. Como o “argumento” bélico dos colonizadores era mais consistente e convincente, o genocídio foi inevitável. Mas nem todos que restaram se renderam; e, de forma marginal, preservaram valores de suas culturas sem os quais deixariam de existir. Para citar apenas um exemplo da parte dos negros, basta lembrarmos dos movimentos dos Quilombos e da viva presença entre nós da religiosidade africana, da capoeira, da culinária etc. Como estes elementos resistiram à pressão? Uma educação paralela, clandestina, subversiva foi desenvolvida e alastrada sorrateiramente no interior da nossa cultura. Os escritos de Jorge Amado acentuam com nitidez este processo que se desenvolveu nas margens da sociedade e na sombra do controle do Estado. Podemos citar como exemplo a formação de bandos, como os bandos de crianças que aparecem em Capitães de areia, tão bem destacados pelo filósofo francês Gilles Deleuze ao analisar os mecanismos coletivos de conjuração de um aparelho de Estado ou de seus equivalentes.
Esta educação clandestina nos legou o valor da luta e da força criativa. Ao longo da nossa história não faltam exemplos que chamam a atenção para a força que resiste e cria em meio a situações extremamente adversas. Se, por um lado, carregamos em nossa formação uma educação elitista, classificatória e etnocêntrica, por outro lado, não podemos negar o valor de uma educação informal, espontânea e, por que não dizer, uma educação antropofágica.
Como alguém se torna o que é
Esse é o subtítulo de um inquietante livro de Nietzsche. Sabemos que nos dias de hoje, com todos os recursos da ciência e os aparatos da tecnologia, as pessoas podem praticamente escolher o corpo que querem ter. Cirurgias plásticas, implantes, próteses, técnicas de rejuvenescimento etc etc não faltam em cada esquina. De bonequinhas loiras e popozudas a monstros dançantes as transmutações não cessam. É quase uma obsessão essa brincadeira de fabricar o seu próprio corpo. Bem que tudo isso poderia ser uma livre expressão de si mesmo, um livre uso que se faz da própria existência à moda dos antigos piratas que rompiam os padrões estabelecidos com suas tatuagens, seus brincos, suas indumentárias e seus comportamentos nada convencionais. Mas não é o caso. Tudo é uma questão de moda e do apelo sedutor do Mercado.
Sabemos que Nietzsche é um dos filósofos que mais valorizou o corpo; mas não nesta lógica consumista e consumidora, em que ele é valorizado apenas em sua aparência. Claro que a aparência é importante. Nada como apreciar uma paisagem bela e seus contornos. Afinal, como se diz por aí, quem gosta de beleza interior é decorador. Mas o problema aparece quando a pessoa se reduz a isto; e nada mais. A beleza exterior passa a ser uma forma de encobrir o real cuidado que se deve ter consigo mesmo. Pois cuidar de si, fabricar o que se é, fazer da vida uma obra de arte é assumir um certo controle sobre a própria existência, é lançar mão de uma liberdade que se tem, é fazer valer a sua condição de singularidade, de ser único, de ser você mesmo.
“Temos de assumir diante de nós mesmos a responsabilidade por nossa existência, por conseguinte, queremos agir como os verdadeiros timoneiros desta vida e não permitir que nossa existência pareça uma contingência privada de pensamento” (Nietzsche, III consideração extemporânea)
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