No boteco

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Manoel, pássaros, devir…

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Devir é mais uma daquelas palavrinhas extraordinárias inventadas pelos gregos. Por mais que se tente, não há nenhuma palavra na língua portuguesa que traduza plenamente o que é o devir. Assim sendo, qualquer tentativa de tradução consiste em um enfraquecimento da sua potência. Melhor então deixar como está e tentar resgatá-la pelas beiradas, pelos exemplos, pelas idéias esparsas.

Manoel de Barros é um poeta do devir. Diz ele:

“Por viver muitos anos dentro do mato

moda ave

O menino pegou um olhar de pássaro –

Contraiu visão fontana.”

O menino passarou. Não, não quer dizer que ele se tornou um pássaro. Muito menos que ele se parece com um pássaro ou tem atitudes de pássaro. Não se trata de metáfora ou qualquer outro tipo de comparação.

O menino contraiu um devir-pássaro. É como se entre ele e o pássaro houvesse uma harmonia, uma linguagem comum, um sentimento compartilhado. É como se o pássaro se sentisse tão à vontade e fizesse um ninho em sua cabeça. É como se ele se sentisse tão próximo e fizesse o pássaro dormir em suas mãos. Mas isto não quer dizer que o devir dependa do contato, de uma convivência conjunta. Contrair o devir-pássaro é contrair a potência do pássaro.

Mas para isso, é preciso se despojar de uma realidade demasiadamente humana. Seria o mesmo que falar uma linguagem sem gramática ou pensar o funcionamento do corpo sem os órgãos. Isto é possível?

Há quem aposte que sim!

31/01/2009 Publicado por marciosales | Uncategorized | | Sem comentários ainda

O valor do desemprego

“O capitalismo francês tem grande necessidade de uma ‘reserva’ de desemprego”. Esta é uma constatação feita, em 1972, pelo filósofo francês Gilles Deleuze. Hoje presenciamos no mundo uma utilização altamente funcional e operacional do desemprego. Basta o anúncio de uma crise econômica mundial para empresas multinacionais e multimilionárias, com sedes sofisticadíssimas nas principais capitas do mundo, se armarem e alarmarem suas ameaças aos quatro cantos do planeta: teremos que dispensar funcionários, caso o governo não nos auxilie. Desemprego: palavra mágica. Esqueça a saúde, esqueça a educação. O mal do século é o desemprego.

O presidente da República aparece em rede nacional e pede para a população não ter medo de comprar: não deixe de realizar o sonho de sua vida de ter um carro do ano, uma geladeira nova, um videogame de última geração, um celular que conversa com você caso esteja deprimido por estar endividado. Acredite no seu sonho: compre; pois assim você estará garantindo o seu emprego e de outras pessoas.

Nas empresas o desemprego é o instrumento de controle mais eficiente. Seja obediente, sujeita-se, faça seu trabalho sem dar trabalho. Tem muita gente que gostaria de estar no seu lugar. A onda de desemprego legitima, inclusive, uma nova forma de escravidão, com atividades indignas e salários aviltantes.

Nas escolas não é diferente: comporte-se direitinho, tire sempre boas notas, seja o melhor, pois a porta do mercado de trabalho é estreita. Ninguém quer um profissional indisciplinado e desordeiro. Pense no seu emprego.

Até uma política contra a imigração surge ancorada no desemprego, encobrindo, muitas vezes, sentimentos racistas. O estrangeiro tira a vaga de emprego que poderia ser do nativo.

Pelo jeito a “reserva” de desemprego de que nos fala Deleuze é uma característica marcante do capitalismo mundial neste início de milênio.

Desemprego, violência, miséria, novas moedas do mercado mundial.

26/01/2009 Publicado por marciosales | Uncategorized | | 1 Comentário

Like a Bob Dylan

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Algumas impressões acerca de Bob Dylan:

- Ele não gostava muito de dar entrevista. Não levava muito a sério este tipo de programa, pois achava que o que dizia tinha sentido diferente para as pessoas. Se dizia “casa” não era a mesma “casa” que as pessoas imaginavam. Assim a imprensa pegava as suas palavras e frases e aplicava a um contexto completamente diferente, distorcendo as suas idéias.

- Ele não cantava suas músicas antigas. Elas faziam parte de outro cenário, outra experiência, outro universo. Considerava desonesto cantar uma canção que não estivesse sentindo ou vivenciando naquele momento. Não que as julgasse inferiores em relação às atuais. Não se tratava disso. Simplesmente as desaprendia.

- A palavra e a música se casam na hora de compor. Mas as palavras são sempre mais importantes. Não para ensinar ou mudar alguma coisa. Não há pedagogia nem esperança nas músicas de Bob. Mas simplesmente para retratar o seu olhar.

- Fugia dos rótulos: folk, rock… meras classificações. Quando tentavam enquadrá-lo num esquema, ele se desconstruía e se tornava outro. Por isso foi motivo de muitas vaias em vários shows. E ele se divertia com tudo isso.

- Não buscava fama, nem popularidade. Como uma pedra que rola não pensava muito no seu destino, no seu paradeiro. A única coisa que sabia é que não podia ficar parado; pois pedra que rola não cria limo.

- Considerava-se político, mas de um partido sem presidente e hierarquias. Um partido virtual que agregava as pessoas a partir de uma visão de mundo. Se suas músicas serviam como protesto é porque fazer política para ele é isto: resistência e criação.

- O mundo é visto por ângulos diferentes. O estado de “embriaguez” permite ver e sentir o mundo de outro ângulo, com outro olhar.

Na seção música, uma eletrizante apresentação de Bob Dylan cantando Like a Rolling Stone e a letra da música traduzida.

09/01/2009 Publicado por marciosales | Uncategorized | | 3 Comentários

Travessia

“a coisa não está nem na partida e nem na chegada, mas na travessia” (Guimarães Rosa)

Três velhos amigos velhos se reúnem para comemorar uma encenação que fizeram juntos da peça A Ceia dos Cardeais, clássico português de Julio Dantas, há 50 anos. Neste encontro relembram suas experiências e falam dos seus amores passados e presentes.

Um velho senhor às vésperas de completar 90 anos decide comemorar com um presente que lhe era comum na juventude: “uma noite de amor louco com uma adolescente virgem”. Em meio a esta aventura recorda das mulheres que passaram pela sua vida.

O olhar da velhice quer o viço permanente do amor.

É o que mostram o filme Juventude de Domingos de Oliveira e o livro Memórias de minhas putas tristes de Gabriel Garcia Márquez.

Ambos falam da juventude, do amor, e da velhice. Ou melhor, falam do amor na juventude e na velhice. Mas com uma grande diferença: o filme traz como cenário uma amizade que resistiu ao tempo. Já o livro uma solidão que insistiu em acompanhar a vida – quase cem anos de solidão.

Mas é o amor que dá o tom da conversa tanto no filme como no livro. É o amor que desperta as saudades; é o amor que acorda as lembranças; é o amor que alimenta o sonho; é o amor que sustenta a alegria de viver.

Não um amor platônico, ideal, perfeito; mas um amor de carne e osso, que é pele, que é sexo, que é respiração, que é confusão. Abalos sísmicos.

Enquanto o coração agüentar esse amor está no ar.

08/01/2009 Publicado por marciosales | Uncategorized | | Sem comentários ainda