Poesia em tempos de indigência
A vida é bela! A vida é doce! A vida é tudo! Sob vários aspectos a vida é louvável e querida. Quer seja na criança, quer seja no adulto, ela é o desejo natural do ser humano. Mas se não me engano, às vezes a vida beira o absurdo e se mostra dolorosa, cruel e sofrida. E a doce vida? Amarga, se vê perdida. E a vida bela? Desbota, fica amarela. E o que era tudo? Parece o fim, o nada, a carência.
E aí, o que fazer nesses tempos de indigência?
Há quem se entrega e desiste, e encontra na morte o único bem que existe. Há quem se rebela e grita, mas a alma continua aflita. Há quem subverte e reclama, e a dor – que é viva – não engana. Há até o que transgride, e num gesto de desespero… agride. Mas existem também aqueles que resistem, e insistem em transformar a água em vinho. São aqueles que ao longo do caminho descobrem que “tudo vale à pena, se a alma não é pequena”. E se a alma não é pequena é porque pode ir além. Além da escuridão, além do pessimismo, além de si mesma. E no deserto seco e árido fazer surgir flores e fantasia, mesmo antes da noite antever o dia, alimentar-se de pão e poesia. “Nem só de pão viverá o homem”. É preciso a poesia. Mesmo a poesia imprecisa, indecisa, ofensiva. Se é poesia é viva, é forte. É capaz de zombar da morte, de expressar o sentimento, encarar o sofrimento, mesmo que por um momento: vencê-lo no pensamento.
A poesia é o grito silencioso, misterioso e vigoroso que preenche os espaços vazios. Mas ela também subverte ao passo que diverte. E comporta a transgressão em forma de canção. Se é poesia alegre ou poesia séria, não tem problema, é anti-miséria. Se é leve ou densa. E daí? Pensa? É da privação que ela dispensa. E se é poesia grande ou pequena, pouco importa, é o antídoto para a pobreza extrema.
Mas por que a poesia em tempos de indigência?
Porque poesia é criação, é ação, e são parceiros dela os loucos. Os poucos que penetram os ocos da existência para torná-la plena e renovada. Morada de novos sonhos, abrigo de novos seres, oásis da imaginação. Na poesia as palavras viram sangue e percorrem as veias pulsando a emoção. E como a vida não é só razão, é preciso espaço para o coração. Nem que seja um espaço curto, mas que seja o espaço todo. O suficiente para significar uma experiência, uma vontade de potência, um surto de clarividência, que expulse do barco a indigência.
Mas e a indigência concreta? Que aperta não o coração, mas a carne. E arde, e fere, e dói. Corrói até a esperança. Onde entra a poesia? No sorriso da criança que apesar da penúria não se cansa. E dança, balança e lança a seta ao infinito, mostrando que apesar do feio, ainda existe o bonito.
Tragédia na baixada
Era 7 de setembro, Dia da Independência. Mas bem que podia ser mais um domingo como outro dia qualquer. Na estrada quase deserta surge um farol vindo de um lado – era uma moto. Da outra direção outro brilho luminoso e veloz – era um carro. De repente, o carro, a moto, o choque e um corpo arremessado pra longe enquanto sua perna se perdia em outro canto da rua. O carro partiu sem deixar vestígio. E o drama estava instalado. Uma moradora que correu para a rua assustada com o barulho não tardou em pedir ajuda. Polícia, Bombeiros, SAMU. 190, 192, 193. Chama, chama e ninguém atende. Após 10 minutos a central de atendimento do SAMU recebe a chamada… Mas o que são 10 minutos? Para uma vida agonizando no chão, uma eternidade. A moradora descreve: “O rapaz estava vivo, ali estendido no chão, um dos carros que passava pela rua parou e era uma paramédica, que ficou falando com o acidentado aguardando o socorro que não vinha”. Depois de 25 minutos, finalmente chega o carro dos Bombeiros. Mas não era uma ambulância. Até esta chegar passou-se mais 5 minutos. 30 minutos de espera, mas já era tarde demais. A vítima não resistiu. Não pense que a novela terminou. Três horas depois, já de madrugada, o corpo permanece estendido no chão, velado apenas pela PM e pelos familiares da vítima. O sangue e as lágrimas se misturam com uma fina chuva que tenta lavar a cidade.
Essa história não é mais uma crônica sobre uma tragédia na baixada fluminense. Ela de fato ocorreu. Mais um anônimo é vítima do caos dos serviços públicos. Como um órgão que se denomina Serviço de Atendimento Móvel de Urgência demora 30 minutos para fazer um atendimento no centro de uma cidade como Nova Iguaçu, após 15 insistentes ligações? A moradora da rua que acompanhou todo o drama, Karla Oldane, resolveu manifestar a sua indignação e encaminhou um e-mail, narrando o acontecido, para vários veículos de comunicação. Na mensagem ela diz: “Se logo que liguei, a ambulância do SAMU estivesse no local, talvez não ocorresse o óbito. O rapaz ficou vivo aproximadamente 20 minutos depois do acidente. Tempo suficiente para que qualquer carro chegasse a esta rua no centro de Nova Iguaçu. Acredito nos meios de comunicação e deixo manifestada a minha revolta. Não temos condições dignas para viver e nem mesmo para morrer. Lá vêm novas eleições e utopicamente aguardo mais atenção para os serviços de Urgência, pois acreditava na eficácia deste serviço”. No boteco estende este manifesto em torno de um episódio que, infelizmente, não é um caso isolado. Conforme as diversas respostas ao e-mail de Karla, isto ocorre com várias pessoas em vários municípios do Rio e em outras partes do Brasil.
Celebramos a independência contemplando a nossa falência.
Como parte deste manifesto, Karla Oldane compôs o poema Um quase nada que você confere na seção poemas nômades.
Di Cavalcanti é só festa
Di Cavalcanti: _ Garçom, chega mais!
Garçom: _ Pois não, seu Di.
Di: _ Traga uma bem gelada. Quero comemorar os 80 anos do manifesto antropofágico.
Garçom: _ Antro… o quê seu Di?
Di: _ An-tro-po-fá-gi-co. Um movimento que a gente participou no início do século passado que procurou pensar a nossa cultura.
Garçom: _ A gente quem?
Di: _ Um pessoal aí, da pesada. Eu, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Victor Brecheret e outros.
Garçom: _ Ah! Então tem alguma coisa a ver com a Semana de Arte Moderna de 1922?
Di: _ Tudo a ver. Mas foi em 1928 que o Oswald leu em público pela primeira vez o manifesto antropofágico. O manifesto celebrava a mistura, o encontro das experiências, a riqueza das diferenças.
Garçom: _ Isso parece ser legal!
Di: _ C`est la vie!!! Viva a antropofagia.
No boteco homenageia os 80 anos do manisfesto antropofágico destacando alguns quadros de Di Cavalcanti (1897-1976) e com o poema Ditirambo na seção poemas nômades.
Tempo de criação
Estamos cercados de agenciamentos maquínicos. As coisas estão acontecendo em vários lugares ao mesmo tempo provocando pequenas fissuras. Novas experiências estéticas, de imagens, movimentos, sons e pensamentos, no campo da música, do teatro, da poesia, da amizade, da política… Agenciamento maquínico é isto. Ações que promovem novos desejos e desencadeiam novas criações. É o movimento de sair da mesmice, de escapar dos moldes, de provocar novos olhares. Querer a amizade e inventar novos modos de amizade. Querer a poesia e criar poesia. Ouvir música e experimentar novas sonoridades. Viver a política e promover novos encontros, novos espaços, novos usos da cidade.
Não, não estamos em tempos de seca. A fonte não se esgotou. A idéia precisa ser provocada. O desejo precisa ser fabricado. A ação precisa ser construída.
No boteco é parte deste jogo. Começou despretensiosamente e tem contagiado os que passam por aqui. As pessoas que encontro comentam que não só freqüentam o boteco, mas levam sempre alguns convidados. Sempre digo que é um espaço de todo mundo e que todos aqui têm voz e vez.
As participações têm sido ótimas. Além dos comentários enriquecedores que são registrados, temos recebido crônicas e poemas belíssimos, cheios de potência, de vida, de emoção. A seção poemas nômades é a mais freqüentada. Agenciamentos de Marcele, Cida, Zé Mauro, Aline, Manga Rosa, Jasmim… e seus intensos poemas. Que se multipliquem as manifestações.
Um forte abraço pra todos os freqüentadores assíduos do boteco.
“A gente escreve com seu próprio desejo, e não se acaba nunca de desejar”, Barthes, 1977
Ode à amizade
Em tempos de descartável a experiência da amizade assume uma nova configuração. É preciso usar em grande escala. Quanto mais, melhor. O sonho do Roberto de ter um milhão de amigos finalmente se torna possível. Basta adicionar no Orkut. Mas cadê ele? Ontem ele tava lá!!! Já se foi… Liga não, alguém vai te adicionar e mandar uma mensagem quando você mais precisar. Na pior das hipóteses, leia a sorte do dia.
Mas nem tudo é ruína. Entre encontros e desencontros existe o algo mais. Aquilo que fica porque é forte demais, porque é marcante, um laço que não se desfaz. É essa amizade que eu quero e espero sempre poder compartilhar… Mesmo remando contra a maré.
E por falar em amizade, no boteco é presenteado com o brilho de Cida, amiga de sempre, e seu belíssimo poema Nós… Amigos. Confira na seção poemas nômades.
Zé Mauro invade o boteco
O Zé chegou pedindo três de tacada. O garçon ficou tonto, tentou esboçar uma reação, mas não teve jeito. Seu pedido foi logo registrado e estampado. Tá lá, não dá pra perder. Terra Del Fuego (na seção literatura), CD e Quintana (na seção poemas nômades). Valeu Zé! O boteco é nosso!
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