Tragédia no bar
O cara estava no bar, sozinho, cercado de garrafas vazias e uma pela metade. Ele bebeu todas. Isso que eu chamo de engarrafamento. Até que aparece um daqueles amigos que se vê de vez em quando, uma vez no bar e outra morte…
_ E aí, meu amigo, como cê tá?
_ Um lixo!
Aí vem bomba. Esse é o tipo de pergunta que é feita para se ter aquela resposta óbvia: Tá tudo bem! Mas não foi este o caso.
_ Que isso cara. Um lixo por quê? Sua mulher te deixou, perdeu algum ente querido, está desempregado?
_ Nada disso. Simplesmente não me conheço mais. Não sei quem sou.
Pensou: Caramba! De duas uma: ou eu saio pela tangente com uma resposta evasiva, do tipo: liga não, até o Cazuza pagou a conta do analista pra não ter que saber mais quem era, e pulo fora, ou sento e ajudo ele terminar aquela garrafa.
Como o calor era grande e ele passou por ali justamente pra ver se alguém pagava uma gelada pra ele, resolveu ficar.
_ Que papo é esse de não se conhecer mais. No fundo ninguém se conhece direito.
_ Pois é. Eu não sei se eu sou o que penso ou o que desejo. Se eu sou o que penso eu estou mudando toda hora, pois meu pensamento vagueia pr’um lado e pra outro mudando o tempo todo de direção. Sou capaz de mudar de opinião lendo um livro, assistindo um filme, ou mesmo numa conversa.
_ Não vejo nada de errado nisso. Como dizia o Raul: “Eu prefiro ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.
_ Mas se eu sou o que desejo, também este é incerto. Ora quero estar sozinho, ora reclamo da solidão. Ora quero andar por aí, ora quero ficar quieto em casa. Ora quero viver no campo, ora na cidade. Ora quero ouvir samba, ora quero ouvir rock.
_ Sei não, mas cê tá mal mesmo! Completamente indeciso!
_ Tá vendo. Antes você não via nada de errado na incerteza e agora critica a minha indecisão. Você mesmo não sabe o que pensa e o que quer.
_ Pera aí. Garçom, traz mais uma! Você tá querendo dizer que eu não me conheço. Como assim? Será que eu convivi esses anos todos com uma pessoa estranha? Será que eu tenho dormido o tempo inteiro com o inimigo?
_ Não seja trágico.
_ Como não! Acabo de descobrir que sou um estrangeiro na minha própria pátria, sou um desconhecido de mim mesmo e você pede pra eu não ser trágico?
_ É que talvez seja este o sentido da existência: a incerteza.
_ De qualquer modo, nada mais trágico.
A vida em modo beta
Entramos no mundo virtual e mergulhamos num universo de inovações que não cessam de se produzir. Inovações tecnológicas, mas também, e principalmente, nos modos de viver. Podemos dizer que nossas vidas já não são mais as mesmas depois do advento da internet. Nossa relação com o tempo e com o espaço é outra; o acesso e uso das informações se alteraram e se alteram por completo; os relacionamentos inteiramente modificados; lazer, trabalho, estudos e negócios, tudo passa pela infovia. A velocidade nos arrasta e exige de nós um jogo de cintura cada vez mais flexível. Precisamos de um novo aprendizado: aprender o modo beta de viver.

O modo beta indica que um programa não está pronto, mas em processo de construção; isto é, em fase de testes, ainda em amadurecimento. Sendo assim, não se deve confiar muito nele devido a sua instabilidade. Acontece que se torna cada vez mais comum os sistemas entrarem em um modo beta perpétuo. Quer dizer: o processo de construção nunca termina. Com isto evita-se de se criar a expectativa de um acabamento perfeito, de uma segurança absoluta, de uma programação definitiva. O modo beta sugere a fragilidade do que está sendo apresentado, seu caráter experimental e sua possibilidade permanente de ajustes e mudanças. Um site em modo beta quer dizer que ele está em preparo, está sendo ensaiado, portanto, em processo permanente de construção.
No entanto, o que pode parecer fraqueza na verdade indica qualidade. Se o modo beta, por um lado, aponta para a vulnerabilidade do sistema, indicando que ele pode conter falhas, imprecisões, uma vez que ainda está em teste (em manutenção), por outro lado, afirma a necessidade de aperfeiçoamento, de que nada é definitivo e que sempre é possível melhorar. O modo beta é o processo de criação permanente e aberto. Assumi-lo é reconhecer que este processo não tem fim; que nada nunca ficará pronto, pois sempre haverá algo a acrescentar e a modificar.
Por isso que o termo “em manutenção” é mais sugestivo que “em construção”. Em construção que dizer que se partiu do zero, do vazio, que não há nada ainda funcionando bem, que não há nada que possa ser apresentado e utilizado. Já em manutenção indica que teve um início, já se concretizou, mas está em desenvolvimento, em fase de aperfeiçoamento, em busca de melhorias. O modo beta é mais comparado com um processo pedagógico, que não tem fim, do que com uma obra de engenharia que, uma vez apertado o último parafuso, a obra terminou.
No modo beta sabe-se que o erro vai aparecer; mas ele faz parte do processo. E ao invés de provocar abalos e rejeições convida para a possibilidade de um aprendizado compartilhado e uma busca de saídas criativas. E quando o erro é incontornável, não tem problema. Afinal, era apenas um ensaio. Constrói-se outro modo beta em seu lugar. Se não houve expectativa de perfeição não haverá sentimento de perda; mas apenas a motivação para recomeçar.
Mistério do Encontro
Os encontros me apetecem. Mas também me espantam… pelo mistério que carregam. Somos o resultado dos encontros que tivemos e temos ao londo da vida. Alguns programados, combinados, arquitetados. Outros imprevistos, inesperados, por acaso. Em todos eles uma carga de afeto. Os encontros afetam os corpos que se misturam. Não dá pra ficar imune. Você encontra uma pessoa que não conhecia e deste encontro surge um novo afeto… e agora você não é mais o mesmo, pois carrega consigo este novo afeto, esta nova experiência. Você encontra um livro que, a princípio, despertou o interesse pela capa. Então começa a lê-lo e eis que de repente ele te afeta de tal maneira que você se transmuta. É como uma nova camada de tinta. O afeto se aloja em você te tornando outro. Fluxo constante onde nada se conserva no mesmo lugar.
E assim encontrei uma música. Mistério do Planeta. E com ela viajei por lugares que já tenho navegado, mas vendo novas paisagens. Ela fala dos encontros dos corpos. Do corpo jogado no mundo, como um lance de dados, que esbarra com a possibilidade de novos encontros. Nesses encontros, pela lei natural que os conduz, deixamos parte de nós com o outro e recebemos um outro tanto. Um jogo de troca em que nem um nem outro permanece o mesmo. Devoração antropofágica. A planta suga da terra o seu alimento, assim como a criança suga do seio da mãe a sua existência. Muda a planta, muda a terra. Muda a criança, muda a mãe. É sempre uma nova muda que brota falando pra vida dos seus doces mistérios. Parte de nós sempre fica com os outros, e dos outros sempre carregamos algo. Poética do roubo. Malandragem de quem tem os olhos atentos no que é do outro, no que o outro tem de valioso. Só me interessa o que não é meu… dita o manisfesto antropofágico. Então roubo e ninguém vê, porque o que é do outro se dissolve no múltiplo que sou – ando e penso sempre com mais de um. Por isso ninguém vê minha sacola. Sou moleque do Brasil.
Segue abaixo a letra de Mistério do Planeta. A música você ouve na seção música.
Mistério do Planeta
(Galvão & Moraes Moreira)
Vou mostrando como sou
E vou sendo como posso,
Jogando meu corpo no mundo,
Andando por todos os cantos
E pela lei natural dos encontros
Eu deixo e recebo um tanto
E passo aos olhos nus
Ou vestidos de lunetas,
Passado, presente,
Participo sendo o mistério do planeta
O tríplice mistério do “stop”
Que eu passo por e sendo ele
No que fica em cada um,
No que sigo o meu caminho
E no ar que fez e assistiu
Abra um parênteses, não esqueça
Que independente disso
Eu não passo de um malandro,
De um moleque do brasil
Que peço e dou esmolas,
Mas ando e penso sempre com mais de um,
Por isso ninguém vê minha sacola
Andar no andor
“Carrego meus primórdios num andor.
Minha voz tem vício de fontes.
Eu queria avançar para o começo.
Chegar ao criançamento das palavras.”
(Manoel de Barros)
Há um ditado popular que diz: devagar com o andor que o santo é de barro. Manoel, que também é de barros, carrega seus primórdios num andor. Reverencia o início, o momento onde tudo principia; o lugar de onde tudo germina, onde tudo está em movimento e em plena transformação. Seu passado mais criativo e desejado soa como a voz de uma criança. Espanto, curiosidade, inquietação, deleite e simplicidade. Há muita vantagem na busca dessa fonte; por isso ela é carregada, com muito zelo, num andor. As crianças quando estão brincando levam muito a sério suas brincadeiras.
Mas o santo que está no andor é de barro. É frágil. Basta uma pequena distração e ele se quebra. Mas distração também é coisa de criança. É o divertimento que mora no esquecimento. Então é certo que ele vai se quebrar. E eis que de repente os primórdios se espatifam no chão. Isso acontece quando querem ser maiores do que aqueles que os carregam. O passado não pode se impor ao presente; não pode querer silenciá-lo; não pode servir de amarras para a força que quer se expandir e criar. Há uma certa desvantagem da história para a vida. Às vezes é preciso quebrá-la, parti-la ao meio, espedaçá-la para que não nos importune mais.
De Chico
Na última sexta-feira, 19 de junho, Chico Burque completou 65 anos. Como não podia deixar de ser, é festa no boteco. Para homenageá-lo fiz uma brincadeira a partir das suas músicas.

Estava à toa na vida, curtindo um amor barato, ouvindo um choro bandido, quando, de repente, ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar. Parei, pensei: tô tendo um pesadelo agora. Mas amanhã vai ser outro dia.
_ O que será que me dá? Quem é você?
_ Te perdôo, por fazeres mil perguntas. Mas não fiques assim: vai passar! Quanto ao amanhã, ninguém sabe. Pra mim basta um dia.
_ Pelo amor de Deus. Tenho cá pra mim que você vai me seguir.
_ Meu caro amigo! Tem dias que a gente se sente à flor da pele. E aí a gente vai levando, de todas as maneiras. Até que descobre que nunca é tarde, nunca é demais. Mas ouças… Ouças um bom conselho. Não é por estar na tua presença, mas eu conheço os passos dessa estrada. Ela desatinou.
_ Carolina?! Deixei a fatia mais doce da vida.
E agora? Sim, vai e diz. Arrasa de vez o meu projeto de vida.
_ Bem, agora? Vamos botar água no feijão.
_ Sei que está em festa, porque não é contigo.
_ É brincadeira. Agora falando sério. Quando olhastes bem nos olhos seus, o seu olhar era de adeus.
_ Mas o nosso amor era tão bom. O horário é que nunca combinava.
_ Pois é. Tenho que dizer: tu tens o amor que merece.
_ Como? Ah, Carolina! Gozei de boa vida. Eu era herói. Vivia a te buscar; fazia samba e amor até mais tarde… e, de repente, eu te vejo sumir por aí.
_ Não te afobes não. Mire-se no exemplo da morena dos olhos d`água.
_ Que morena?
_ A morena de Angola.
_ Choro, choro sim. Até ficar com dó de mim.
_ Não chores ainda não. Mesmo sendo errados os amantes seus amores serão bons.
_ De que me serve um amor de lembrança? Eu que lhe dei meu corpo, com açúcar e com afeto.
_ Mas tu dizias que ela fazia todo dia tudo sempre igual.
_ Mas meu corpo é testemunha do bem que ela me faz. Oh, pedaço de mim! Afasta de mim este cálice.
_ Vai meu irmão. Ergues esta cabeça. Acorda, acorda, acorda…
Fazes o seguinte: fica o dito por não dito.
_ Mas é tanta saudade! E se eu pudesse entrar na sua vida…
_ Cara, não tem jeito. Hoje o samba caiu. De tudo que é nego torto ela já foi namorada.
_ Já que é assim. Agora eu vou até o fim. Ninguém vai me segurar.
_ Como assim? Enlouquecestes?
_ É isso mesmo. Trocando em miúdos: já que minha cabeça está pelas tabelas, vou perder a noção da hora.
_ Calma, meu guri.
_ Calma nada. A novidade que tem no brejo da cruz… é pra lá que eu vou.
_ Tu precisas te acalmar.
_ Preciso não dormir.
… e saiu feito louco, fazendo hora, fazendo fila na vila do meio-dia. Pra ver Maria.
_ Oi coração.
_ Se acaso me quiseres, quero ficar no teu corpo feito tatuagem.
_ Então vem, meu menino vadio.
(…)
E amaram um amor proibido.
_ Já lhe dei meu corpo.
_ Deus lhe pague.
Hoje sonhei contigo e fiz um samba em homenagem.
Tiro de misericórdia
Essa coisa de não saber o que diz mexeu com Wilson. E como a polêmica estava apimentada, resolveu pegar pesado… e dessa vez emplacou dois sambas atacando diretamente a pessoa de Noel. Wilson diz que Frankenstein da Vila é uma indireta de um amigo. O que seria então uma direta de um inimigo? Na seqüência vem Terra de cego com um golpe final.

Frankenstein da Vila (Wilson Batista)
Boa impressão nunca se tem
Quando se encontra um certo alguém
Que até parece um Frankenstein
Mas como diz o rifão: por uma cara feia perde-se um bom coração
Entre os feios és o primeiro da fila
Todos reconhecem lá na Vila
Essa indireta é contigo
E depois não vá dizer
Que eu não sei o que digo
Sou teu amigo
Terra de Cego (Wilson Batista)
Perde a mania de bamba
Todos sabem qual é
O teu diploma no samba.
És o abafa da Vila, eu bem sei,
Mas na terra de cego
Quem tem um olho é rei.
Pra não terminar a discussão
Não deves apelar
Para um barulho na mão.
Em versos podes bem desacatar
Pois não fica bonito
Um bacharel brigar.

Noel, é claro, não gostou da letra, mas achou a melodia de Wilson muito boa. E propôs uma trégua. Mais que isso, propôs uma parceria. E para pôr fim à discussão fizeram um samba sobre uma mulher que ambos namoraram. No caso de Wilson foi um romance passageiro; mas para Noel tratava-se do grande amor da sua vida. Em cima da melodia de Wilson Noel escreveu uma das letras mais duras do samba-romance brasileiro. Daí surgiu uma parceria única Deixa de ser convencida.
Deixa de Ser Convencida (Noel Rosa / Wilson Batista – 1935)
Deixa de ser convencida
Todos sabem qual é
Teu velho modo de vida
És uma perfeita artista, eu sei bem,
Também fui do trapézio,
Até salto mortal
No arame eu já dei.
E no picadeiro desta vida
Serei o domador,
Serás a fera abatida
Conheço muito bem acrobacia
Por isso não faço fé
Em amor, em amor de parceria
(Muita medalha eu ganhei!)
Noel Rosa morreu dois anos depois, aos 26 anos de idade, no bairro de Vila Isabel, consagrado como um dos maiores compositores brasileiros. Wilson continuou fazendo sucesso até 1968 com muitos sambas memoráveis.
Trechos dessa intriga musical sensacional e imagens incríveis do Rio antigo você assiste na seção música.
Palpite fiado e conversa infeliz
Foi a vez de Wilson responder à provocação de Noel quase que ver a verso. Para combater o Feitiço da Vila, chama o palavreado de Noel de Conversa fiada.
Conversa fiada (Wilson Batista, 1934)
É conversa fiada dizerem que o samba na Vila tem feitiço
Eu fui ver para crer e não vi nada disso
A Vila é tranqüila, porém eu vos digo: cuidado!
Antes de irem dormir dêem duas voltas no cadeado
Eu fui à Vila ver o arvoredo se mexer
E conhecer o berço dos folgados
A lua essa noite demorou tanto
Me assassinaram o samba
Veio daí o meu pranto.

Mas mexer com a Vila é mexer com os brilhos do sambista. Noel então leva adiante a polêmica dizendo que se seus versos são “conversa fiada”, a opinião de Wilson não passa de um Palpite infeliz.
Palpite Infeliz (Noel Rosa, 1935)
Quem é você que não sabe o que diz?
Meu Deus do Céu, que palpite infeliz!
Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira,
Oswaldo Cruz e Matriz
Que sempre souberam muito bem
Que a Vila não quer abafar ninguém,
Só quer mostrar que faz samba também
Fazer poema lá na Vila é um brinquedo
Ao som do samba dança até o arvoredo
Eu já chamei você pra ver
Você não viu porque não quis
Quem é você que não sabe o que diz?
A Vila é uma cidade independente
Que tira samba mas não quer tirar patente
Pra que ligar a quem não sabe
Aonde tem o seu nariz?
Quem é você que não sabe o que diz?
O palco da Vila

Mas não se chama um sambista malandro de “rapaz folgado” achando que vai sair impune. Wilson subiu nas tamancas e disparou um samba à queima-roupa:
Mocinho da Vila (Wilson Batista)
Você, que é mocinho da Vila,
Fala muito em violão,
Barracão e outros fricotes mais.
Se não quiser perder o nome,
Cuide do seu microfone,
E deixe quem é malandro em paz.
Injusto é seu comentário,
Fala de malandro quem é otário,
Mas falando não se faz.
Eu, de lenço no pescoço,
Desacato
E também tenho o meu cartaz.
O samba foi considerado fraco por Noel, que resolveu dar uma resposta num tom que é um misto de indiferença e de exaltação de si mesmo e da sua querida Vila Isabel. Foi uma resposta de imediato, no mesmo ano de 1934. Feitiço da Vila logo se transformou em um grande clássico.
Feitiço da Vila (Noel Rosa – Oswaldo Gogliano [Vadico])
Quem nasce lá na Vila
Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba
Que faz dançar os galhos
Do arvoredo
E faz a lua nascer mais cedo!
Lá em Vila Isabel
Quem é bacharel
Não tem medo de bamba
São Paulo dá café,
Minas dá leite
E a Vila Isabel dá samba!
A Vila tem um feitiço sem farofa
Sem vela e sem vintém
Que nos faz bem…
Tendo nome de Princesa
Transformou o samba
Num feitiço decente
Que prende a gente…
O sol da Vila é triste
Samba não assiste
Porque a gente implora:
Sol, pelo amor de Deus,
Não venha agora
Que as morenas vão logo embora!
Eu sei por onde passo
Sei tudo que faço
Paixão não me aniquila…
Mas tenho que dizer:
Modéstia à parte,
Meus senhores, eu sou da Vila!
Quem nasce pra sambar
Chora pra mamar
Em ritmo de samba.
Eu já saí de casa olhando a lua
E até hoje estou na rua.
A zona mais tranqüila
É a nossa Vila
O berço dos folgados;
Não há um cadeado no portão
Porque na Vila não há ladrão.
Sinta o Feitiço da Vila na interpretação de João Gilberto na seção música.
“Tem mais samba no encontro que na espera”

E foi um encontro formidável que marcou uma das maiores “polêmicas” da música popular brasileira. O encontro musical de Noel Rosa e Wilson Batista. Recém chegado de Campos, Wilson se encantou com a vida boêmia da Lapa, no final dos anos 20. Noel, natural de Vila Isabel, já era um artista consagrado quando Wilson apareceu no pedaço. Mas Wilson chegou abafando e querendo conquistar o seu espaço. Logo de cara emplacou seu primeiro samba Na estrada da vida (1929). Mas foi em 1933 que a polêmica começou com Lenço no pescoço.
Lenço no pescoço (Wilson Batista)
Meu chapéu do lado
Tamanco arrastando
Lenço no pescoço
Navalha no bolso
Eu passo gingando
Provoco e desafio
Eu tenho orgulho
Em ser tão vadio
Sei que eles falam
Deste meu proceder
Eu vejo quem trabalha
Andar no miserê
Eu sou vadio
Porque tive inclinação
Eu me lembro, era criança
Tirava samba-canção
Comigo não
Eu quero ver quem tem razão
E eles tocam
E você canta
E eu não dou
Não tardou para Noel, incomodado com a postura do malandro aprendiz, responder em alto e bom som com Rapaz folgado.
Rapaz Folgado (Noel Rosa)
Deixa de arrastar o teu tamanco
Pois tamanco nunca foi sandália
E tira do pescoço o lenço branco
Compra sapato e gravata
Joga fora esta navalha que te atrapalha
Com chapéu do lado deste rata
Da polícia quero que escapes
Fazendo um samba-canção
Já te dei papel e lápis
Arranja um amor e um violão
Malandro é palavra derrotista
Que só serve pra tirar
Todo o valor do sambista
Proponho ao povo civilizado
Não te chamar de malandro
E sim de rapaz folgado
Mas seria Noel contra a malandragem que ele mesmo tanto cantou em seus sambas? Dizem as más línguas que na verdade a intriga começou por causa de uma moça, freqüentadora da Lapa, que ambos gracejavam, mas que Wilson acabou levando vantagem. Aliás, este era o cartaz que Wilson precisava; pois, afinal, “brigar” com Noel era uma ótima chance para ficar famoso.
Mas a polêmica não acaba por aí. Haverá a tréplica de Wilson Batista.
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